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Luiz Carlos Merten

16 Setembro 2006 | 15h26

Ricardo Elias mostra no sábado que vem, no Festival do Rio, seu novo filme, Os Doze Trabalhos. A Première Brasil é a maior vitrine do cinema brasileiro. Diretores importantes vão reservar este ano seus filmes para o Festival de Brasília, que exige ineditismo, mas o que será visto no Festival do Rio não está no gibi.Não posso falar do que não vi, de Antônia, de Tata Amaral, por exemplo, filme pelo qual estou tinindo, nos cascos, como se diz. Mas, em compensação, já vi o belo e triste O Céu de Suely, de Karin Aïnouz, que é muito bom e mostra que as crias de Walter Salles (Karin, Marcelo Gomes e Sérgio Machado) estão hoje na linha de ponta do cinema brasileiro. E vi também, hoje de manhã, Os Doze Trabalhos. Defeitos à parte, que o filme tinha, gosto muito do filme anterior do Ricardo, De Passagem, mas este é melhor e mais maduro. Logo na abertura, o narrador diz que o lugar de nascimento de uma pessoa pode definir sua vida. O protagonista de Os Doze Trabalhos chama-se Heracles. Nasceu na periferia, é negro, tem passagem pela Febem. Ricardo Elias é branco e de classe média. Em princípio, não tem nada a ver com o universo de Heracles, mas o entende (e sabe como expressar na tela). O que Ricardo entende, acima de tudo, é que não são universos conflitantes, mas são a mesma coisa.
É um filme curto, com menos de 90 minutos, e simples, centrado nos trabalhos que um motoboy tem de fazer em seu primeiro dia, para ser aceito na empresa. O título original era Os Doze Trabalhos de Hércules. Há esse narrador que conta a história de Heracles e as de todas as pessoas com quem ele cruza. E há outro personagem que, aos poucos, vai dominando a cena – a cidade, neste espectro que vai da periferia às Marginais, à Paulista, à 23 de Maio. Você nunca viu São Paulo deste jeito. O filme é muito legal, muito forte. Sua simplicidade é enganosa. E o ator Sidney Santiago, que faz Heracles, pelamor de Deus… Me informam que ele fez a série Carandiru, na TV, participando principalmente dos episódios do Roberto Gervitz. Sidney é guri, ainda. Jovem e talentoso. Fique de olho. Os Doze Trabalhos. Não vai revolucionar o cinema brasileiro, como Suely também não vai, mas apontam para um ano de muita criatividade no nosso cinema.