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Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2007 | 11h00

Acho que já contei aqui, mas também contei ontem no ‘Caderno 2. Em 2000, entrevistei Charlize Theron no Carlton Hotel, de Cannes, onde ela estava participando das coletivas de ‘Caminho sem Volta’ (The Yards), segundo longa de James Gray. Havia falado com o Gray em Veneza, quando ele lançou seu primeiro filme, ‘Little Odessa’. Com o segundo, ele foi a Cannes. Com o terceiro, voltou a Cannes, este ano. Perguntaram ao Gray porque ele demorou tanto tempo, não para voltar a Cannes, mas para fazer o terceiro filme, ‘Os Donos da Noite’? A resposta dele – “Porque é difícil conseguir dinhero para fazer os filmes que a gente quer.” Gosto muito desse cara e, pelo menos para mim, ‘Os Donos da Noite’ é ‘Os Infiltrados’ bom. O próprio James Gray, atualmente com 38 anos (nasceu em 1969), representa uma nova geração cinéfila de Hollywood. É aqui que volto ao começo, a Charlize. Ela ainda não havia recebido o Oscar (por ‘Monster’, sei lá como se chamava no Brasil, mas acho o filme horroroso). Era apenas uma mulher bonita. Apenas? Charlize era, e continua, um assombro. Falando sobre o filme, ela contou que James Gray havia mostrado um filme italiano para a equipe, só para terem uma idéia de clima. O filme era ‘Rocco e Seus Irmãos’, de Luchino Visconti. E Charlize me perguntou se eu conhecia? ‘Rocco’? É o filme da minha vida, respondi. E ela foi muito simpática – ‘Então o James vai gostar de você’. ‘Caminho sem Volta’ conta a história dessa família. O cara sai da cadeia, quer levar uma vida direita, mas a família o leva de volta ao crime. Mark Wahlberg e Joaquin Phoenix são os protagonistas. (Me lembro que, em 2000, a assessoria de imprensa avisava que havia um tema proibido para ele – Joaquin não responderia a perguntas sobre seu irmão River Phoenix. Se insistissem, ele abandonaia o recinto…) ‘Os Donos da Noite’ conta outra história de crime e família. Mark é policial, como o pai (Robert Duvall). Joaquin, seu irmão, dirige uma boate que é fachada para as atividades criminosas da Máfia russa em Nova York. (Vejam que a Máfia russa é o tema quente – ou alguém conseguiu se esquecer de ‘Os Senhores do Crime’, de David Cronenberg?) Joaquin esconde que o pai e o irmão sejam policiais, mas quando descobre que o irmão vai ser morto tem de tomar partido. O próprio James Gray diz que parece estar fazendo sempre o mesmo filme, para falar de família, pais e filhos, irmãos e irmãos. Mas, como ele diz, o problema não é repetir, é progredir. Os filmes têm de avançar, internamente. Em Cannes, este ano, ele disse que gosta muito de Fellini. Comparou ‘Os Boas Vidas’ e ‘Amarcord’ e acrescentou que esse é o tipo de progressão autoral que o fascina. Não acrescentou, mas acrescento eu – talvez um dia ele chegue lá. ‘Os Donos da Noite’ é uma tragédia familiar, feita por um admirador de Visconti e Fellini. Vocês, cinéfilos, já viram? Em caso negativo, o que estão esperando? O filme tem Eva Mendes, em seu melhor papel. Tem Mark Wahlberg, o ator da nova geração que mais se assemelha a uma rocha, como se tivesse a cara esculpida na pedra dos astros de antigamente. E tem Joaquin Phoenix. James Gray definiu como é trabalhar com ele – é uma viagem entre ‘Alice no País das Maravilhas’ e o ‘Salò’, de Pasolini. Um diretor norte-americano que cita, com conhecimento de causa, três nomes fundamentais do cinema italiano, é coisa rara. Seria só curioso, se o filme dele não fosse bom. Mas é.

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