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Luiz Carlos Merten

19 Março 2010 | 09h14

Tive ontem um dioa tão agitado na redação que não consegui postar nada. À noite, em casa, foi o servidor que não ajkudou. Faltou conexão. Mas estou com este post na cabeça e vou insistir. Na terça, dia 23, comemora-se o centenário de nascimento de Akira Kurosawa. Na quarta, dia 24, Steve McQueen estaria completando 80 anos. Morreu cedo o astro de ‘Bullitt’. McQueen nasceu em março de 1930 e morreu em novembro de 1980, aos 50 anos. E lá se vão 30 anos… Lembrei-me dele, ontem, quinta, porque fui redigir um texto, para o ‘Caderno 2’, sobre a mostra ‘Zona Livre’ de cinema independente, que começa no CineSesc. A programação deve incluir muitas e boas atrações, reconheço, mas me interessou particularmente, e eu diria somente,  o ‘Hunger’ do outro McQueen, homônimo do ator. Steve McQueen é artista visual ligado à experimentação cinematográfica. Ele sempre fez filmes para exibir em galerias de arte, nunca nos circuitos tradicionais. ‘Hunger’ é sobre a greve de fome de terroristas do IRA, o Exercito Republicano Irlandês, em 1981. O filme ganhou um dos prêmios da crítica em Cannes, no ano passado. É minimalista, rigoroso, uma porrada. Sem nenhuma concessão, nem ‘plástica’, McQueen acompanha a agonia dos grevistas de fome, que perderam a quebra de braço com Margaret Thatcher. A chamada Dama de Ferro, aliada de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e do Papa João Paulo II, estava – estavam todos – empenhada(os) em afundar o comunismo e a dupla Thatcher/Reagan queria também consolidar o modelo econômico neoliberal. Tiveram sucesso em ambas as inicviativas. Thatcher, claro, não cedeu a razões humanitárias e passou feito um trator sobre as reivindacações dos terroristas seus prisioneiros. Boa parte da produção de Stephen Frears nos anos 1980 trata das transformações humanas e sociais na Inglaterra sob Thatcher.  ‘Hunger’ é sobre isso e a fome, vocês vão ver, não se refere só à greve. Possui múltiplos significados (de Justiça? Humanidade?). De que maneira diferimos dos que nos são contrários, se terminamos agindo exatamente como eles? Estou falando agora de um McQueen e pensando no outro. O astro. Steve McQueen iniciou seu reinado na televisão, nos anos 1950. Ex-marine, fez pequenos paspeis em filmes de Robert Wise (‘Marcado pela Sarjeta’) e Fritz Lang (‘Suplício de Uma Alma’) antes de estourar em dois filmes de John Sturges no começo dos anos 1960, o western ‘Sete Homens e Um Destino’ e a aventura de guerra ‘Fugindo do Inferno’. Transformado em astro, McQueen rapidamente se impôs, aos críticos como ao público. Físico atlético, mas com um gosto apurado, era um homem de gestos elegantes e somava a tudo isso uma postura política aberta que fazia dele um dos liberais de Hollywood nos anos 1960. Neste sentido, podia ser comparado ao que é hoje George Clooney, por exemplo. E ele fez belos filmes – ‘O Preço do Prazer’, de Robert Mulligan, com Natalie Wood; ‘Crown, o Magnífico’, de Norman Jewison; ‘Bullitt’, de Peter Yates; e os dois Peckinpahs, ‘Dez Segundos de Perigo’ (Junior Bonner) e ‘Os Implacáveis’. Por mais que goste desses filmes, o ‘meu’ Steve McQueen é outro. Em 1969, ele fez, com direção do ex-ator Mark Rydell, ‘Os Rebeldes’. Adaptado de William Faulkner, o filme é sobre este garoto que parte numa viagem de iniciação pelo Deep South, acompanhado de dois homens mais crianças do que ele, um branco, Boon (McQueen), e outro negro, Ned (Rupert Crosse). ‘Os Rebeldes’ é narrado pelo ex-garoto, agora velho, muitos anos mais tarde. A trama envolve o primeiro carro da história de Jefferson, no Mississippi, e lá pelas tantas, para resgatar o tal carro – que foi apostado por Ned -, o menino participa de uma corrida de cavalos. É uma das cenas mais belas já filmadas. O menino se lembra da sensação, do vento no lombo do animal. Foi uma coisa que o marcou para sempre e a maneira como Rydell filma também me marcou. Steve McQueen viriou sinônimo de velocidade na tela, mas em seu mais belo filme o veloz era outro, o garoto. Intensa magia do cinema. O próprio Mark Rydell era tão bom. Adorava alguns filmes dele. O western ‘Os Caubóis’, por exemplo. John Wayne conduz boiada com garotos, a quem transforma em homens na porrada. O aprendizado era um dos temas clássicos do gênero. Wayne morre e é enterrado na planície. Mais tarde, concluída a missão os garotos voltam em busca da sepultura e perderam sua localização. O personagem, e o mítico Wayne, se integra à paisagem do Oeste. Não creio que outro ator, já nem falo do personagem, tenha recebido homenagem mais bela.