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Cultura » Os dois da ‘onda’

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Luiz Carlos Merten

28 Maio 2010 | 10h00

Godard e Truffaut, ‘Les Deux de la Vague’, os dois da onda. A vague, em questão, é a nouvelle, que assolou o cinema francês na segunda metade dos anos 1950, mudando tudo – a crítica como a realização e os métodos de produção. Estreia hoje o documentário de Emmanuel Laurent que vi no ano passado, em Cannes. Aliás, foi no ano passado ou há dois? Confesso que não me impressionei muito com a parceria de Laurent e Antoine de Baecque, que co-assinam a pesquisa (e o roteiro), a direção é creditada a Laurent sozinho. Baecque co-escreveu o livro sobre François Truffaut (com Serge Toubiana) e também assina sozinho a monumental biografia de Godard (950 páginas), um extenso, e árduo, trabalho de reportagem. Godard desautorizou o livro, disse que contém falsidades que podem atingir sua parceira, na arte e na vida, Anne Marie Miéville. Ele também não gostou que membros da família, da qual era o pária, tenham colaborado com Baecque. Mas Godard já anunciou que não vai fazer nada para impedir a circtlação de ‘La Biographie’. Você se lembra dos problemas do garoto Truffaut, que foi salvo do reformatório pelo amor do cinema (e de André Bazin). Godard roubava – passou nos trocados uns tesouros do avô materno, se apropriou do caixa da revista ‘Cahiers du Cinéma’. Godard, 171? Não se trata, bem entendido, de um criminoso comum. Talvez simplesmente ele não acreditasse na propriedade. Em seu novo longa, ‘Film Socialisme’, Godard escarnece do direito de autor. Diz que um autor tem só ‘obrigações’. O filme é um compêndio sobre a dívida do Ocidente em relação à Grécia. Godard anteciopava a crise em Atenas? Se há uma coisa que ele swempre teve foi a consciência de seu – do nosso – tempo. Não li a matéria de ontem de Luiz Zanin Oricchio na capa do ‘Caderno 2’, mas li a ‘pecinha’, com a frase de Emmanuel Laurent. ‘Os filmes de François Truffaut me falam ao coração. Os de Godard me fazem refletir.’ É um chavão, bem entendido. Adorei a entrevista de Godard a ‘Les Unrocktibles’, editada sob a forma de um fascículo que era distribuído na Croisette, em Cannes. Godard esculhamba o amigo Truffaut. Diz que seu cinema era nulo, ou melhor, não é que fosse nulo, mas com certeza não era o tipo de cinema com que o próprio François e ele sonhavam no início da ‘vague’. A mágoa de truffaut, segundo Godard, é que não podia dizer a mesma coisa dos filmes de Jean-Luc. Gosto de alguns filmes de Truffaut – ‘Os Incompreendidos’, ‘Jules e Jim’, ‘O Garoto Selvagem’, mas gosto mais de outros de Godard. “Le Mépris’, ‘Le Mépris’, ‘Le Mépris’. E ‘A Chinesa’, ‘Week-End à Francesa’, ‘Je Vous Salue Marie’ e ‘Nouvelle Vague’, quando ele recorreu a Delon, o grande. Godard não apenas  faz até hoje o cinema provocativo que sua geração defendia como sobreviveu a todas as ondas e virou mito. Godard realmente me estimula a refletir. Truffaut só me emociona de verdade na história de Victor. A imagem do garoto selvagem uivando para a lua, com aquela frase (fragmento) musical de fundo. Truffaut foi injusto consigo mesmo. Ele tinha mais a dar do que os desmaios da femme d’à coté.