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Cultura » Os dois ‘Amos’

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Luiz Carlos Merten

23 Junho 2009 | 15h22

Não sei se falei para vocês, em Cannes, de ‘Ajami’, que encerrou a seção Quinzena dos Realizadores. O filme conta a história desse garoto que mora em Jaffa, numa vizinhança em que convivem, precariamente – ou se confrontam o tempo todo –, judeus, muçulmanos e cristãos. O mais impressionante de ‘Ajami’ é que foi feito a quatro mãos, por um cineasta palestino, Scandar Copti, e outro judeu, descendente de colonos ortodoxos, Yaron Shani. Ambos estão loucos para vir ao Brasil. Quem fazia a assessoria do filme deles era Richard Lormand. Encontrei-os rapidinho, porque ainda não havia visto o filme, mas ambos me disseram que o entendimento sempre é possível, desde que exista vontade política, e isso é o que falta no Oriente Médio. ‘Ajami’ bem poderia estar integrando a 2ª Mostra do Audiovisual Israelense, que começa hoje, até porque o evento começa com o objetivo declarado de estimular o público a refletir/vivenciar sobre um Israel contemporâneo. Espero que ‘Ajami’ integre a seleção do Festival do Rio, ou da Mostra de São Paulo. Espero que Copti e Shani venham, afinal, ao País. A Mostra do Audiovisual que começa hoje não é destituída de grandes atrações, pelo contrário. Há uma homenagem ao centenário de Tel-Aviv. E temos até os dois Amos do cinema israelense, o Gitai e o Kollek. Amos Gitai fez com ‘Plus Tard’ seu primeiro filme, em anos, a não tratar da política israelense. O filme é inspirado nas memórias da mãe de um diretor da TV francesa, acho que Canal Plus, mas não tenho certeza. Jeanne Moreau faz a protagonista, que assiste pela TV ao julgamento de Klaus Barbie, o açougueiro de Lyon, enquanto prepara um jantar para o filho. Ele é Hippolyte Girardot, que pesquisa a história da famlília e a morte dos avós num campo de concentração. Não achei ‘Plus Tard’ um grande Gitai, mas o filme tem uma cena excepcional. Hippolyte pede à mãe que fale sobre suas lembranças. Jane desconversa. Ela nunca quis carregar o peso da memória do Holocausto. Mas enquanto desconversa, todo o corpo, os gestos, olhares, revelam o que as palavras estão escondendo. Que extraordinária – e sutil! – atriz é jeanne Moreau. O outro Amos, o Kollek, é o diretor de ‘Restless’, ou ‘Você Também Pode’, que vi já nem me lembro em que festival (Cannes? Berlim?). Um israelense que foi para Nova York e virou poeta reencontra o filho, 20 anos depois. O garoto tem essa relação rancorosa com o pai que o abandonou. Acho que foi Berlim – nenhum outro festival é mais sensível às relações entre pais e filhos. Esses dois filmes e mais outros 20, entre documentários, ficções e animações, serão exibidos até 28 pelo Centro de Cultura Judaica.