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“Os Deuses Malditos’

Luiz Carlos Merten

13 Maio 2012 | 14h34

Sempre interessado em discutir a família como célula-mater da sociedade – Margaret Thatcher dizia que não havia essa coisa, a sociedade, mas indivíduos e suas famílias -, Luchino Visconti sonhou durante muito tempo com um filme sobre uma família tão poderosa que pudesse praticar, impunenente, os crimes mais perversos. Ele poderia ter se apropriado da saga dos Bórgias, mas Visconti associou a esse desejo uma reminiscência. Em 1934, ele estava na Alemanha e ficou marcado pelo clima de decadência moral da República de Weimar, sob Adold Hitler. Essa família criminosa e impune só poderia se desenvolver sob o nazismo. Mais de 30 anos depois do que viu, Visconti começou a gestar o que viria a ser ‘Os Deuses Malditos’. La Caudita degli Dei, em italiano. Gotterdamerung, em alemão. Criou os Essenbecks, baseando-se nos ‘Bruddeenbrooks’ de Thomas Mann, mas também em Shakespeare, elementos trágicos de ‘Hamlet’ e ‘Macbeth’. Uma família de industriais do aço e a particularidade lhe interessava por causa das forjas e do fogo – esse elemento romântico, ligado à mitologia e que se faz presente em todas as encenações do nazismo. Começa com um jantar em família, no qual afloram os conflitos entre os que apoiam e os que se opõem ao ‘führer’. Curiosamente, era assim que também começava ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, de Vincente Minnelli. Só que ali onde Minnelli colocava ‘melos into drama’, Visconti é duro feito pedra. Em ‘Vagas Estrelas da Ursa’, de 1965, e depois em ‘O Estrangeiro’, baseado em Albert Camus, ele introduzira a lente zoom como elemento central de sua mise-en-scène, o que lhe permitia uma aproximação mais brutal dos personagens, como se quisesse trespassar a carne para devassar o interior. Nesta noite, o patriarca Essenbeck vai morrer (será morto) e a luta por seu espólio será cruel. Martin, o personagem de Helmut Berger, vai manipular a todos e destruir a família. Seu ódio é contra a mãe, Ingrid Thulin, a quem ele vai ‘possuir’, cometendo incesto. O espectador que hoje assiste a ‘Os Deuses Malditos’ não consegue nem imaginar o impacto que teve, há 40 e poucos anos, a cena de Helmut Berger vestido de mulher, interrompendo o jantar de família com sua recriação do mito de Marlene (Dietrich) em ‘O Anjo Azul’. O clássico de Joseph Von Sternberg já era sobre a decadência moral de Weimar, mas agora Visconti radicaliza. Outra cena impactante foi a do massacre dos SA, que compunham a guarda pretoriana de Hitler. Mas eles eram comandados por um gay vicioso e Hitler, depois de se servir deles, sentiu que necessitava de outra elite e fez com que os SS massacrassem os SA, para assumir seu lugar. O filme é todo ele uma série de massacres, morais e físicos. Todo um mundo vai sendo destruído na trajetória irresistível de Martin para consolidar seu poder. De fundo, Wagner, ‘O Crepúsculo dos Deuses’. Nem por isso, ‘Os Deuses Malditos’ é anti-wagneriano. Como dizia Visconti, não era culpa de Wagner que celerados como Ludwig II e Hitler tenham se apropriade sua música, o primeiro para viver uma delirante fantasia artística e o segundo, para perpetrar o Holocausto. Estou com o DVD de ‘Os Deuses Malditos’ em casa, mas não creio que conseguirei tempo para rever o filme, antes de viajar, amanhã. O importante é que, no fim dos anos 1960, um vento de repressão varreu a Europa. O nazi-fascismo voltou a ser uma força política, apesar dos esforços para bani-lo, na Itália e na Alemanha. Vittorio De Sica já havia se baseado em Jean-Paul Sartre para fazer ‘O Condenado de Altona’, em 1962. O próprio De Sica berberia na fonte de Giorgio Bassani para fazer ‘O Jardim dos Finzi Contini’ em 1971, ganhando com o filme seu último Oscar. Vieram, na sequência, ‘O Porteiro da Noite’, de Liliana Cavani, e ‘Salô’, de Pier Paolo Pasolini. Tudo isso é história (História?). ‘Os Deuses’ de Visconti não só se inscrevem na tendência como se destacam como uma força particular. E o elenco do filme? Dirk Bogarde, Charlotte Rampling, Florinda Bolkan, mais os citados Helmut Berger e Ingrid Thulin. ‘Os Deuses Malditos’ é daqueles filmes que cinéfilo pode (re)ver cem vezes e sempre vai descobrir alguma coisa nova. Você, leitor, pode começar a maratona.