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Os Deuses Malditos (3)

Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2007 | 16h00

Helmut Berger surge na obra de Visconti num pequeno papel de ‘A Bruxa Queimada Viva’, episódio – com Silvana Mangano e Annie Girardot – de ‘As Bruxas’. Apaixonado pelo belo austríaco, Visconti o escalou para o papel central de ‘Os Deuses Malditos’, contracenando com Dirk Bogarde e Ingrid Thulin, entre outros grandes atores e atrizes. Bruno Villiers conta como Visconti tiranizava seu protegido. Na cena em que o personagem de Helmut se traveste como Marlene Dietrich em ‘O Anjo Azul’, Visconti não ficava satisfeito com a performance. Ele fez Helmut repetir a cena mais de 20 vezes e estourou, chamando-o de m… e dizendo que devia voltar à Áustria e se esconder, porque nunca seria um ator. Naquela mesma noite, Visconti projetou o clássico de Josef Von Sternberg para Helmut e na manhã seguinte ele fez a cena do jeito que o mestre queria. Conta a lenda que a própria Marlene, depois de assistir a ‘Os Deuses Malditos’, pegou duas fotos, a de Helmut e a dela, e as acrescentou num bilhetecom a pergunta – “Qual é a mais bonita? Love, Marlene.’ Visconti, artistocrata e comunista, nunca fez segredo de que era homossexual , embora tenha tido alguns casos célebres com mulheres quando era jovem. Mas eu tenho a impressão de que foi com Helmut que as pulsões homoeróticas se tornaram mais intensas e críticas. Helmut era jovem, Visconti já estava com 60 anos. A trilogia alemã – ‘Os Deuses Malditos’, ‘Morte em Veneza’ e ‘Ludwig’ – é toda ela construída em torno ao tema do homossexualismo como decadência e destruição, o que pode dar uma idéia do tormento que Visconti vivia na época. Bruno Villiers conta que ele morreu sem ter perdoado Helmut Berger pelo que chamava de traição. Visconti odiava Joseph Losey, que tinha, como ele, o projeto de adaptar ‘Em Busca do Tempo Perdido’. Cada um fez o seu Proust – Visconti, em ‘Morte em Veneza’ (e, antes disso, em ‘O Leopardo’); Losey, em ‘O Mensageiro do Amor’. Cada um dizia que o outro havia inviabilizado seu projeto e em Visconti a necessidade de filmar Proust, voltando-se sobre si mesmo, devia ser mais visceral. Após ‘Ludwig’, ele já estava doente, confinado na cadeira de rodas e com dificuldade para falar, quando Helmut foi fazer ‘A Inglesa Romântica’ com Losey. Visconti sentiu-se abandonado, rejeitado e quase pirou. É incrível essa fragilidade do artista – do gênio –, mesmo os maiores.