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Luiz Carlos Merten

09 Novembro 2007 | 15h27

Devoto de são Luchino, como sou, tenho nítida preferência pelos filmes italianos do mestre – desde ‘Obsessão’ e ‘La Terra Trema’ até ‘Rocco’, passando por ‘Belíssima’ e ‘Sedução da Carne’ (Senso). Sinto um estranhamento por ‘Um Rosto na Noite’ – o Dostoievski de Visconti, adaptado de ‘As Noites Brancas’ –, amo ‘O Leopardo’ e ‘Vagas Estrelas da Ursa’ (o segundo até mais) e estou disposto a ir até o inferno para defender ‘O Estrangeiro’, que Visconti fez em litígio com a viúva de Albert Camus, que não lhe permitia atualizar o livro, mas ele próprio não o considerava um de seus filmes menores (e não é mesmo). Sou meio reticente em relação à fase alemã – ‘Os Deuses Malditos’, ‘Morte em Veneza’ e ‘Ludwig, a Paixão de Um Rei’-, mesmo considerando/entendendo os motivos que levaram o diretor a fazer cada um deles. Volto a amar incondicionalmente o Visconti de ‘Conversation Piece’/’Ritratto di Famiglia in un Interno’, que aqui se chamou ‘Violência e Paixão’. Gosto, mais até pelos defeitos – inconcebíveis num perfeccionista como Visconti –, de ‘O Inocente’. Bruno Villiers faz um relato apaixonante sobre os bastidores da filmagem. Visconti, em cadeira de rodas, semiparalítico, infernizava todo mundo e desesperava-se por não estar conseguindo fazer seu filme como queria. De volta a ‘Os Deuses Malditos’, o filme surgiu logo depois de ‘O Estrangeiro’ e é muito possível que o filósofo do absurdo, um moralista na tradição do século 18, que tentava corrigir o destino reorganizando a realidade pela ficção, tenha levado o artista a refletir sobre o mundo sem moral, oferecendo essa visão apocalíptica do surgimento do nazismo. O jovem Visconti estava na Alemanha quando houve a chamada ‘noite dos punhais’, que ele reproduz em Os Deuses Malditos. A matança dos oficiais das SA pelos SS marca o avanço da ala mais pesada do nacional-socialismo. Visconti nunca esqueceu o clima na Alemanha da época. No final dos anos 60, não apenas ele, mas também Pasolini, se horrorizavam com o que lhes parecia (e era) o recrudescimento de grupos neonazistas. Quando a entrevistei em Veneza, a roteirista Suso Cecchi d’Amico me contou da depressão de Visconti quando dirigia figurantes em cenas da juventude hitlerista e via aquele pessoal se inflamar muito além das necessidades das cenas. Ao abordar o nazismo, Visconti não seguiu a vertente psicanalítica, tentando explicar via Freud aquilo que Bergman chamou depois de ‘o ovo da serpente’. Para Visconti, os Essenbacks, personagens de seu filme, podem ser perversos, decadentes, mas compõem uma família e foi como tal que lhe interessaram. Uma família muito poderosa, ao contrária a família proletária de Rocco. Neste quadro familiar, todos os crimes permanecem impunes e o terrível, na visão de Visconti, é que ele via, e passa a idéia para a gente, o nazismo como degeneração patológica do capitalismo. Vai ser interessante discutir a atualidade de Visconti quando o DVD de ‘Os Deuses Malditos’ chegar às lojas, no mês que vem.

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