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Os deuses apaixonados

Luiz Carlos Merten

14 Março 2016 | 15h09

Ainda estava viajando quando estrearam dois filmes – Deuses do Egito e Apaixonados. Vi o primeiro no fim de semana de 4/5 e me surpreendeu que era o único filme com sessões lotadas no Playarte Marabá. Vi o outro neste final de semana, no Jardim Sul. Desta vez éramos poucos – Dib Carneiro e eu, e um povo que entra e saía da sala para comprar pipoca e refrigerante. Êta, gente encapetada. Como não tive tempo nem espaço de escrever sobre a fantasia de Alex Proyas, fui à rede procurar o que escreveram os coleguinhas sobre Deuses. Aproveito para dizer que me diverti e até emocionei com o filme, mas confesso que não sou parâmetro. A Folha desancou o filme invocando o tema do branqueamento – deuses egípcios, atores brancos. Até pegou carona no Oscar, uma sacada, digamos, oportuna. Mas havia, entre as ‘críticas’ disponíveis na internet, uma do The Guardian cujo título achei interessante. O crítico admitia seu prazer culpado vendo o filme de Alex Proyas, imagino que tenha sido o mesmo que experimentei, se bem que nessa quadra da vida, aos 70, prazer é prazer mesmo, e sem culpa. Sua tese, a do cara do Guardian, era a mesma – branqueamento e ele até dedicava um parágrafo, ó coincidência, a enumerar as nacionalidades dos tais atores brancos, Gerard Butler à frente. Pensei com meus botões – Omar Sharif era egípcio e, se estivesse vivo, poderia muito bem fazer o papel de Geoffrey Rush. Sharif interpretou Jivago, Francisco Ferdinando e um monte de personagens históricos sem que os diretores, e estou falando de um David Lean, que primeiro o escalou como egípcio (o xerife Ali de Lawrence da Arábia), fossem acusados de ‘enegrecer’ (seria o termo?) figuras brancas. O próprio Alex Proyas colocou Will Smith, um negro, como protagonista de Eu, Robô, adaptado da história de Isaac Asimov, e não há nenhum indício no texto de que o personagem seja afro-americano. Sei não, mas desconfio dessas generalizações de mão única. Como não quero ficar insistindo no Deuses, vamos a Apaixonados (mas só uma observação – até os deuses do Egito são apaixonados, e é o que gosto no filme). A comédia de Paulo Fontenelle me ‘frechou’, como cantava Elis Regina, desde a primeira cena. Adoro carnaval, mas antes do primeiro ensaio, na quadra da Grande Rio, Nanda Costa e Raphael Vianna ficam presos naquele elevador. Deus do céu, podem me condenar por voyeurismo, mas não me importava de colocar os dois num filme de Lav Diaz só para ficar olhando a dupla por oito horas seguidas. Apaixonados conta histórias de casais (heteros, nenhum gay) que se formam na volátil época do carnaval, quando, de acordo com o espírito pagão da festa, ninguém é de ninguém. Nanda e Raphael e os intérpretes das outras duas histórias ‘são’ – estamos falando de ‘pertencimento’. Como disse, sou carnavalesco de carteirinha e, na saída, já estava pesquisando para ver se o carnaval do ano que vem bate com Berlim. Não bate! E eu já prometi a mim mesmo que tenho de estar em forma para viver de novo aquela gloriosa experiência do carnaval de rua do Rio. Me aguardem! Como no caso de Deuses do Egito, fui ver o que disseram os críticos. A velha acusação de humor televisivo – o título não deveria ser Apaixonados, o Filme mas ‘Apaixonados, o Especial da Globo’. Bom, pelo menos concederam que deveria ser um especial. Em meados dos anos 1950, uma geração de diretores de TV dos EUA migrou para Hollywood. Delbert Mann, Sidney Lumet, Arthur Penn, John Frankenheimer. Eventualmente, viraram – alguns, pelo menos – grandes diretores, mas havia críticos que já batiam na tecla do estilo televisivo. O mar não anda para peixe, para ficar citando Marx – Karl, não Groucho. A história, pobre de nós, vive se repetindo. Como farsa.