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Luiz Carlos Merten

04 Abril 2011 | 22h21

Fui ver ontem à noite o novo Arthur Omar no É Tudo Verdade. ‘Os Cavalos de Goethe’ causou estranhamento. Muita gente não esperou nem 5 minutos e já começou a sair. Foi uma debandada, mas nós – uns três quartos da sala – ficamos até o fim e adoramos. Não sabia nada do filme. Na apresentação, Arthur relatou que o filme nasceu de uma viagem que fez ao Afeganistão em 2002. Ele colheu milhares de fotos para uma exposição e um livro, já publicado, mas ainda faltava o produto cinema, na verdade é vídeo. Na saída, alguns conhecidos vieram me cobrar se havia gostado. Mais que isso, queriam saber se achava que ‘aquilo’ era documentário? É, mas não o documentário social, narrativo, tradicional. Arthur Omar resiste ao rótulo documentário experimental porque acha que induz o público a pensar na forma, apenas, e a ‘experiência’ que ele busca(va) é mais abrangente. Vou voltar aos ‘Cavalos’, mas agora quero ressaltar duas coisas que foram música para meus ouvidos (e olhos). Há uma voz que declama poemas sobre o tempo. Não conheço tanto T.S. Eliot para sacar que o texto era dele, mas a voz eu reconheci de cara – Alec Guinness. Ouvia e me perguntava – o que Alec Guinness faz aqui? Junto, me vinham ecos da participação do lendário ator em outros filmes. O xeque de ‘Lawrence da Arábia’, dizendo a El Aurens (Peter O’Toole) e Ali (Omar Sharif) ‘Go my children, ’cause  now its time for the politicians to discuss’. Já antes da projeção, Arthur Omar explicou que havia reduzido sua visão do Afeganistão ao minimal, a relação cavalo/cavaleiro que recolheu de um jogo antiquíssimo e muito popular no país, o buskashi. Quase caí da poltrona. Me vieram rachando as imagens de ‘Os Cavaleiros do Buskashi’, que John Frankenheimer realizou por volta de 1970, com Omar Sharif e Jack Palance. O filme é justamente sobre esse jogo bárbaro que muitos consideram a origem do cricket. Dois grupos de cavaleiros disputam a cabeça decepada de um bode, ou carneiro – cuidado, Dib -, como se fosse uma bola. Omar Sharif faz o filho de Jack Palance, que foi o maior dos cavaleiros do buskashi. Um dos dois se chama Uraz. O pai? Nos anos 1960/70, eu amava John Frankenheimer. ‘O Homem de Kiev’, com Alan Bates e Dirk Bogarde, que ele adaptou de Bernard Malamud. colocava questões de ética e justiça que pareciam essenciais sob a ditadura. Na sequência, Frankenheimer emendou seus melhores filmes, ou pelo menos assim me pareciam – ‘Os Para-Quedistas Estão Chegando’, ‘O Pecado de Um Xerife’ e ‘Os Cavaleiros’. Lembro-me de Paulo Francis, ironizando, no ‘Diário da Corte’, a cobertura midiática da primeira guerra do Afeganistão (a de Bush pai). Os russos, perdão, os soviéticos haviam invadido o país e os norte-americanos foram ‘libertá-los’. A mídia pintou o Afeganistão como o paraíso terrestre, um país de fente boa e gentil que teria sido pervertida pelos comunistas. Francis dizia que os afegãos continuavam bárbaros em pleno século 20. Sempre achei que o brutal jogo do filme de Frankenheimer era a melhor prova disso. Conversei hoje com Arthur Omar. Ele não tinha referência do filme de Frankenheimer. Alertado por amigos, viu ‘Rambo 3’, em que Stallone vence sozinho os soviéticos, com direito a um jogo de buskashi que não poderia ser mais fake. A atriz, quem era? Leigh Taylor Young. Linda, talentosa, mas com poucas chances em Hollywood. Viajei nos ‘Cavalos de Goethe’ e o vídeo de Arthur Omar ainda me devolveu, no imaginário, o belo filme de Frankenheimer. Vocês viram? Não me lembro que tenha saído em DVD no Brasil. Na minha lembrança, ele passa intacto.