As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os brincos de Danielle, a gloriosa Madame De. E o cinema não cessa de me surpreender, e encantar

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2017 | 09h44

Em maio, depois de Cannes, como faço todos os anos, fiquei uns dias em Paris. Havia uma retrospectiva de Danielle Darrieux na Filmothèque du Quartier Latin. Danielle nasceu em 1.º de maio de 1917. Era anterior à Revolução Russa. Morreu na terça, 17. Cem anos! Em dezembro, havia morrido Michele Morgan, aos 86 anos. Michelle, com aqueles olhos e o porte aristocrático, era uma grande dama. Danielle tinha um tipo mais prosaico. Cabia no papel da operária como da dama. Fez… Seis lá quantos filmes, uns 80. Começou nos anos 1930, e um de seus primeiros filmes, La Mauvaise Graine, foi assinado por um cineasta austríaco de passagem pela França, rumo aos exílio nos EUA, onde se tornou um dos maiores diretores de Hollywood – Billy Wilder. Casou-se com Henri Décoin e o primeiro marido dirigiu-a muitas vezes, ainda nos anos 1930 e, depois, nos 40. E vieram os grandes papeis – Max Ophuls, Max Ophuls, Max Ophuls. La Ronde, Le Plaisier, Madame De, que não resisti e vi duas vezes. Danielle levou uma carreira internacional, filmando nos EUA – com Joseph L. Mankiewicz (Cinco Dedos) e Robert Rossen (Alexandre, o Grande). Filmou com expoentes da velha guarda – Claude Autant-Lara, Occupe-Toi d’Amélie e O Vermelho e o Negro; Julien Duvivier, Pot Bouille e Marie-Octobre – e conseguiu fazer a passagem para a nouvelle vague, filmando com Claude Chabrol e Jacques Demy. Danielle cantava – com um fio de voz, mas muito afinada – e passou dos 80 integrando o grande elenco feminino de Oito Mulheres, de François Ozon. Não, não estou me esquecendo de O Lugar do Crime, de André Téchiné. Numa carreira eclética e, não raro, brilhante, trabalhou duas ou três vezes com um autor marginal como Paul Vecchiali, homenageado da Mostra deste ano. Danielle Darrieux! Fiquei siderado vendo-a jovenzinha em Abus de Confiance e, depois, mulher madura no esplendoroso Madame De, que no Brasil se chamou Desejos Proibidos. Vacilei este ano em Paris. Posso ser maluco, mas sempre preferi Carta de Uma Desconhecida a Lola Montès, mas este ano descobri que o ‘meu’ Max Ophuls é Madame De, no qual Danielle está gloriosa. Os brincos de Louise, Madame la Comtesse De… O final, Danielle correndo para o local do duelo… E Vittorio De Sica, o ator. Tirando o sublime General della Rovere, sempre achei que ele fazia o estilo do italiano macarrônico. Faz o mais genial dos canalhas no Ophuls. Já passei dos 70, não creio que vá chegar aos 100, como Danielle, mas só espero que o cinema nunca deixe de me surpreender e maravilhar, como ela tantas vezes fez com seus grandes filmes.