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Luiz Carlos Merten

10 Março 2008 | 14h36

Eu e a minha desconfiança com a internet. Queria ver quem era o terceiro nome no elenco de ‘Os Ambiciosos’. Não me lembrava que era Jean Servais. Fui ao Google. Coloquei o título original do filme ‘La Fièvre Monte à El Pao’. A máquina – burra – respondeu que eu queria dizer ‘La Fièvre Monte à El Paso’. Não – era ‘El Pao’ mesmo. Mas, enfim, ‘Os Ambiciosos’ ostenta a fama de ser o filme mais explicitamente político de Luis Buñuel. Carrega também um paradoxo – como Buñuel dirigiu de forma tão indiferente seu filme mais político é coisa que nem ele conseguia explicar. A propósito, foi o próprio Buñuel quem contou. Um dia, o ator Gérard Philippe e ele tiraram as máscaras, em pleno set no México. Buñuel perguntou-lhe por que quis fazer seu filme? Philippre respondeu – ‘Não sei, e você?’ Buñuel respondeu que também não sabia, mas não era verdade. Na época, ele necessitava desesperadamente de dinheiro e teria feito qualquer coisa que não fosse ofensiva nem que o levasse a cuspir nas próprias convicções. ‘Os Ambiciosos’ conta a história deste funcionário – um burocrata – numa ditadura da América Latina. O cara usa seu pequeno poder numa penitenciária para promover mudanças humanitárias. Ele dá um dedo, que é o que pode. Os presos querem a mão. Ele tem de responder com a repressão, o que lhe grangeia a simpatia do poder central. Mas o herói não desiste de prosseguir com suas reformas. Em 1959, a revolução de Fidel triunfara em Cuba, mas a esquerda mundial vivia uma época de crise. As denúncias do stalinismo provocaram um racha. Os que acreditavam no socialismo democrático passaram a se opor à ditadura do proletariado praticada pelo PC na antiga União Soviética. Mais do que política, a discussão que interessa ao Buñuel de ‘Os Ambiciosos’ é ética. Até que ponto se pode colaborar com o regime que a gente quer combater, em nome do avanço? A ação situa-se na América Latina, mas Buñuel estava falando da Espanha, e do PCE, que aderia a algumas reformas propostas pelo Generalíssimo Franco para arejar seu regime – e seguir a fórmula de Tancredi em ‘O Leopardo’. ‘As coisas precisam mudar para que tudo continue no mesmo’. Faz tempo que não vejo ‘Os Ambiciosos’ – e só vi uma vez. Guardo duas lembranças do filme. A da sensualidade de Maria Félix e do jogo de sedução que ela faz para tentar fortalecer o personagem de Gérard Philippe. E a figura do próprio Gérard Philippe, grande mito da representação na França, nos anos 50. Ator de clássicios no Théâtre National Populaire de Jean Vilar, Gérard Philippe encarnava a rebeldia da juventude francesa no cinema. ‘Adúltera’ (Le Diable au Corps), de Claude Autant-Lara, foi um marco do cinema do pós-guerra, embora François Truffaut tenha investido contra Autant-Lara, incluindo-o (e ao seu clássico) no ‘cinema de qualidade’ que fustigou no célebre artigo em ‘Cahiers du Cinéma’ que é considerado o manifesto da nouvelle vague. Gérard Philippe morreu de câncer no próprio ano em que fez ‘Os Ambiciosos’. Já estava devastado fisicamente. Nunca descobri se foi o último filme que ele rodou. Acho que foi, porque Gérard não parece tão mal em ‘As Ligações Amorosas’, que Roger Vadim adaptou de ‘Les Liaisons Dangereuses’, o romance epistolar de Choderlos de Laclos (e foi lançado em 1960). A verdade é que o Moacuir me contaminou. Fiquei com vontade de rever ‘Os Ambiciosos’. E a Maria Félix, hein? Grande mito de mulher fatal do cinema mexicano, Maria filmou com Buñuel, Emílio ‘El Índio’ Fernández e Jean Renoir. Nos anos 50, ela era considerada a maior e mais internacional estrela de cinema da América Latina. Nunca vi seu filme cujo título atiça a minha imaginação, ‘La Diosa Arrodillada’, melodrama de Roberto Gavaldón. A deusa ajoelhada. Não é o máximo? A mulher fatal vencida pelo amor e prostrada aos pés do homem que ama? E como era bonita Maria Félix! Aquele monumento de joelhos incita aos devaneios eróticos.