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Os abutres de Wilder

Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2010 | 10h38

Mauro Brider comenta como o circo que a mídia armou em torno do resgate dos mineiros chilenos lhe fez lembrar ‘A Montanha dos Sete Abutres’. A ele e à torcida do Mengão e do Coríntians juntas. Lembrei-me, sim, do clássico de Billy Wilder, mas me lembrei também de ‘A Era do Rádio’, de Woody Allen. A ‘América’ acompanha pelas ondas do rádio o resgate da menininha que caiu, não me lembro se no poço, e ela sai de lá sem vida. É o anticlimax de um filme que é quase sempre leve e divertido e que, naquele momento, Woody Allen puxa para baixo, num tom grave e triste. Ele era tão bom – tão melhor, já que sei que, para muitos de vocês, continua ótimo. De volta a Wilder, e à montanha dos abutres, o filme era o preferido do grande diretor. Pelo menos é o que ele conta no livro ‘Hollywood Entrevistas’, de Michel Ciment – que virá para a Mostra, como jurado. E Wilder explica – ‘Quando uma mãe tem 12 filhos e um deles é paralítico, é esse que ela prefere’. Por uma vez o mestre não estava sendo cínico. Ficou famosa sua resposta quando lhe perguntaram, certa vez, se ele realmente acreditava que o ser humano era basicamente corrupto, amoral e cínico. Wilder respondeu – ‘Claro que não! Você não viu ‘A Noviça Rebelde?’ No caso de ‘papai’ Wilder, ele também preferia seu filhinho paralítico. Pois ‘Montanha’, ao estrear, provocou reações de ódio do público e dos críticos. Era o filme que os norte-americanos não queriam ver em 1951, embora tenha adquirido depois a reputação de clássico e hoje nove entre dez cinéfilos – quando não onze sobre cada dez – o tenham em alta conta. Ruy Castro escreveu há muitos anos no ‘Caderno 2’ um texto bacana – ‘E os abutres quase devoraram Wilder’ – para contar a história de como o filme estava adiante de sua época e, por isso, foi rejeitado. Wilder chegou a ser chamado de ‘antiamericano’, e isso era um perigo no começo dos anos 1950. Ele se baseou num episódio real, ocorrido nos anos 1920, ou 30, sobre um sujeito que ficou preso durante 18 dias, vivo, nos escombros de uma mina. Naquela época, mesmo sem TV ao vivo, a imprensa marrom, somada aos exploradores da fé e vendedores de cachorros quentes, fez um circo do caso – um grande carnaval, ‘The Big Carnaval’, como era um dos título originais do filme (o outro – ‘Ace in the Hole’). ‘A Montanha dos Sete Abutres’ é certamente impressionante, mas não é um dos meus Wilders (no plural) preferidos. Para ficar nessa mesma seara da imprensa, gosto muito mais de ‘A Primeira Página’, que terminou sendo um dos últimos filmes – o antepenúltimo – do cineasta. Mal comparando, o Wilder de ‘The Front Page’ me parece mais sereno, sem deixar de ser virulento, exatamente como o Luís Buñuel de ‘O Discreto Charme da Burguesia’ é mais efetivo do que o de ‘Um Cão Andaluz’, mesmo que o primeiro tivesse o caráter de um manifesto (e, como tal, seja um marco do cinema). Mas eu confesso que me incomoda um pouco o ‘expressionismo’ de Wilder, neste filme e no anterior ‘Farrapo Humano’, pelo qual ganhou seu primeiro Oscar de direção, em 1945. Vou até fazer uma confissão – sempre que tenho de citar ou escrever sobre ‘A Montanha dos Sete Abutres’, sabem de quem me lembro? De Sérgio Bianchi. E daí que as ongs isso e aquilo, que a humanidade é corrupta. A arte pode e deve mostrar isso, mas eu sempre espero um plus a mais. Uma certa comiseração? Compaixão? Quando Kirk Douglas pede à mulher da vítima que reze por ele – para satisfazer a multidão –, Jan Sterling diz que não vai se ajoelhar para não rasgar as meias. O próprio Wilder deu-se conta disso. E a verdade é que o ‘fracasso’ de ‘A Montanha dos Sete Abutres’ teve um impacto considerável na trajetória do autor. Wilder mudou – para permanecer o mesmo? –, encerrou uma fase e substituiu os dramas sombrios sobre temas pesados (ou vice versa, os dramas pesados sobre temas sombrios) pelas comédias. Vale destacar que elas seguiram igualmente cínicas e demolidoras.