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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2007 | 09h46

Fiz ontem um programa duplo sensacional, e nem foi preciso ir ao cinema. Estava zapeando na Tv paga e entrou o ‘Orgulho e Preconceito’, que Joe Wright adaptou de Jane Austen. Comecei a ver, vi um pouquinho, mais um pouquinho, agora mais um pouquinho e fui até o final. Já havia dito aqui que adoro a adaptação do Wright, com roteiro de Deborah Moggach. Devo admitir que faz tempo que não vejo ‘Razão e Sensibilidade’, de Ang Lee, que deu a Emma Thompson o Oscar de roteiro, o que talvez explique para vocês a afirmação que vou fazer agora. Mas adoro ‘Orgulho e Preconceito’, que é o meu preferido entre os filmes recentes adaptados da escritora inglesa. ‘Pride and Prejudice’ já havia sido adaptado, acho que no começo dos anos 40, por Robert Z. Leonard, com ninguém menos do que Greer Garson e Laurence Olivier (sou capaz de jurar que Aldous Huxley era um dos roteiristas). Este filme antigo, que vi na TV, em priscas eras, era muito bom, muito bonito, mas difere da versão de Wright pelo simples fato de que ele ‘releu’ Jane Austen e fez uma adaptação mais moderna. Adoro Keira Knightley como Lizzie, Matthew Macfayden me dá a impressão de ter nascido para ser Mr. Darcy e o filme ainda tem todos aqueles veteranos notáveis (Brenda Blethyn, Donald Sutherland e Judi Dench). Acho a cena do baile deslumbrante. Joe Wright não é aristocrático como Visconti, mas ele tomou a cena de outro baile em ‘O Leopardo’ – como modelo. De certa maneira, fez seu baile como farsa. No de Visconti, o olhar do príncipe era o motor da cena, que era longa, ocupando quase um terço do filme. Aqui, a câmera atravessa o baile e vai revelando os personagens, em seus pequenos dramas (ou em seus pequenos ridículos). E o Ian McEwan com certeza leu Jane Austen. Há nela essa convenção social das palavras que, atropelada, produz mal-entendidos que podem destruir a vida das pessoas. Mr. Darcy, interpelado por Lizzie, que acha que ele destruiu a vida da irmã dela, diz coisas desagradáveis, sem pensar. Nos livros de McEwan, não há retorno, a menos que seja por meio do poder regenerador da própria literatura. Em ‘Orgulho e Preconceito’, como em Jane Austen, de maneira geral, os personagens – e Mr. Darcy faz isso – ajudam a reconstruir o que (quase) destruíram. É maravilhoso. Enche a alma. Eu não sei de vocês, mas nunca vou me cansar de dizer que minha referência é Van Gogh, quando afirma, na carta ao irmão Theo, que pinta para consolar. A realidade é muito dura e eu preciso desse consolo, mas ele não pode ser uma coisa alienada nem alienante. Em ‘Orgulho e Preconceito’, não é. Joe Wright fez depois – com Keira, de novo – ‘Desejo e Reparação’, baseado em McEwan. O cabra é bom.