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Luiz Carlos Merten

20 Março 2010 | 12h21

Fiquei tão feliz com o lançamento de ‘Antes da Chuva’ em DVD… Há pouco saiu ‘O Espírito da Colmeia’, de Victor Erice; no mês que vem chega ‘Clamor do Sexo’, de Elia Kazan. São todos grandes filmes, mas com ‘Rocco e Seus Irmãos’, ‘Rastros de Ódio’ e outros, não muitos, são os filmes que regem o meu panteão particular. A gente pode reconhecer a importância de certos filmes e ter por eles uma admiração fria. E daí que a cena da eascadaria de Odessa é a mais influente do cinema em todos os tempos? Nem sei se ainda é, porque veio depois o assassinato de Marion Crane na ducha, em ‘Psicose’, e Alfred Hitchcock não deixa de ser um aplicado discípulo de Sergei M. Eisenstein, que usou a montagem com outro objetivo. Agora mesmo, recebi da Versátil as cópias de trabalho de dois filmes que a empresa está lançando, para compor um pacote de MaxOphuls. Um deles é ‘Lola Montes’, com Martine Carol, considerado a obra-prima do autor, e o outro, ‘Coração Prisioneiro’. Há um culto a Ophuls e a ‘Lola Montes’. A apresentação da versão restaurada em Cannes Classics virou um dos grandes acontecimentos da história do festival. Foi até ministro prestigiar a recuperação de um filme cuyja destruição, nos anos 1950, não teria provocado somente a morte do autor. ‘Cahiers du Cinéma’, na época dos jovens turcos (Truffaut & Cia.) fez campanha pelo filme justamente porque se tratava de defender a ‘autoria’, contra a indústria. Ophuls, seu verdadeiro nome era Maximilien Oppenheimer, nasceu em Sarrebrück, herdeiro de uma família de industriais. Você já deve ter ouvido falar nele como o mais cosmopolita dos grandes diretores, ou como o judeu errante do cinema. Ophuls nasceu em 1902, morreu em 1957. Foi ator e diretor de teatro. Fez nove filmes que marcaram a história do cinema. É curioso que seja lembrado como o cineasta da valsa, mas faz sentido, um pouco porque Ophuils era atraído por Viena, como cenário, mas também porque os movimentos de câmera, que estão na essência de sua mise-en-scène, fazem de seus filmes verdadeiras vertigens audiovisuais. Todo o cinema de Ophuls trata das ambiguidades e da superficialidade do universo aristocrático e burguês, operando, desde o interior, a destruição do último. Há, por assim dizer, uma trágica oposição entre a  aparência e o que ela esconde. Por isso mesmo, leveza e frivolidade são adjetivos sempre associados aos personagens de Ophuls. Grande artista que foi, ele não teve muitos seguidores e, embora a nouvelle vague o adorasse, talvez somente Jacques Demy tenha algo a ver com seu estilo (Eric Rohmer e Jacques Rivette, que tambem poderiam ser citados, nem tanto). Ophuls causou um impacto muito maior sobre Kubrick, que o homenageia em ‘Glória Feita de Sangue ‘ e ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’.  Na apresentação de ‘Lola Montes’ em Cannes Classics, o próprio filho de Max, o também cineasta Marcel Ophuls – autor de documentários políticos – ressaltou que a forma vienense e o rococó alemão de seu pai não devem enganar ninguém. O cinema dele, sob essa aparência, é duro, e crítico. Ophuls foi o grande analista da mulher vítima dos homens. A vida de Lola é contada num circo, vira um espetácuilo. Lola prenuncia  Marylin (Monroe), então no auge (e que morreria cinco anos mais tarde). Os críticos gostam de dizer que foi Ophuls, na França, quem realmente soube usar o formato cinemascope. Até isso é motivo de admiração no filme, mas sou forçado a admitir que, tendo revisto ‘Lola Montes’,  experimentei a tal admiração ‘fria’. O filme não me fala, fico de mármore. Preciso rever o noir ‘Coração Prisioneiro’ (Caught), que Ophuls fez nos EUA. Definitivamente, o ‘meu’ filme do autor é ‘A Carta de Uma Desconhecida’, que ele adaptou de Stefan Zweig, transformando Joan Fontaine na mais sofredora das heroínas. Ouso dizer que a evocação romântica e estilizada que ele faz de Viena, no século 19, é tão perfeita que ‘A Carta’ me parece o mais ‘europeu’ de seus grandes filmes. Mas há controvérsia, sei. O diálogo com o melodrama não é para todos os gostos. É para o meu, e como estamos falando de preferência pessoal, é o que me basta.