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Cultura » Onde, nas estrelas?

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Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2010 | 11h23

BUENOS AIRES – Tanta coisa para falar. As mortes de Dino de Laurentiis e Luis García Berlanga, a master class de Apichatpong Weerasethakul. Vou comeÇar pela última. “Joe” falou ontem aqui na Argentina sobre suas origens, a infancia no hospital (onde os pais eram médicos), o curso de arquitetura (nisso estivemos juntos), a fotografia, o cinema e, hoje, as múltiplas atividades em filmes, video-instalaÇoes etc. Tenho de admitir, mesmo que a contragosto (brincadeirinha…), meus limites. Nao conheÇo tanto rock, ou melhor, nao conheÇo nada, para tentar dizer qual é a trilha que Apichatpng usa no primeiro vídeo que nos mostrou. (A propósito, tive aqui uma antecipaÇao do que será Sao Paulo nos dias 21 e 22, com a loucura midiática e de transito provocadas pelos dois shows de Paul McCartney.) De volta ao vìdeo, é uma reconstituiÇao dos incidentes em sua província que levaram a um massacre e inspiraram o projeto “Primitives”, do qual faz parte “Tio Boonmee”. A camera solta corre no meio de jovens, ao som de um rock pesado. Explodem bombas de gás lacrimogeneo, ou do que assim parece. Sao gases amarelos, ocasionalmente vermelhos. Entra um caminhao, alguns jovens montam neles e, sem camisa, danÇam furiosamente ao som do rock. Mas qual? Talvez esteja no YouTube, para os que quiserem conferir. Na cara dura, havia perguntado a Apichatpong sobre homossexualismo. Sempre achei que há um clima entre aqueles dois caras, na primeira parte de “Mal dos Trópicos”. Quando a aÇao se transfere para ca floresta, sempre me inclinei a ver aquela caÇada ao tigre como uma espécie de metáfora sobre o homossexualismo. Nao conseguia decifrar as imagens, mas a sensualidade daquilo é uma coisa que permanece comigo. Apichatpong desconversou, mas ontem tive a mesma sensaÇao. Esses jovens (rebeldes? fugitivos?) que ele filma sao homens. Todos. A camera percorre seus corpos, os peitos desnudos. Sei nao… Apichatpong mapeou filme a filme. Falou dos momentos particulares em que foram feitos. Seu cinema nao é narrativo, no sentido hollywoodiano, e na entrevista hoje publicada no “Caderno 2” ele observa como é curioso, e estranho, para ele, ter sido premiado em Cannes por diretores como Quentin Tarantino e Tim Burton. Seu cinema resiste muito bem ao ser mostrado em partes, fragmentos. Talvez porque o importante seja mesmo a criaÇao do clima. O mistério, a poesia. Ele diz que, como espectador, nao consegue sentir/experimentar o próprio mistério, prque tudo aquilo é sempre produto de muita elaboraÇao e, ao olhar, o que ele encontra sao as lembranÇas das filmagens. Aliás, isso é muito importante. Apichatpong diz que seu cinema é tao feito de lembranÇas que ele tenta incorporar as lembranças dos próprios atores sobre o que está sendo filmado. Embora o gosto pelo experimentalismo lhe seja fundamental – e o levou a estudar no Art Institute de Chicago -, Apichatpong nao citou Andy Warhol, por exemplo, entre os seus diretores favoritos. Citou Tsai Ming-liang, cuja obra está sendo revisitada em Sao Paulo, neste momento, num ciclo no CCBB, e -surpreendentemente, mas sem tanta surpresa assim – Manoel de Oliveira. Seu gosto pode variar, mas ontem, segundo ele, Manoel de Oliveira era o maior cineasta (“autor”) do mundo. Sobre Tsai, lembrei-me de uma coisa interessante. Durante a projeÇao de “Tio Boonmee”, na quinta à noite, foi a minha vez de nao me lembrar que a mulher, na casa do tio (a “tia!), claudica como a Bovary de Oliveira, a sublime Leonor Silveira, em “Val Abraao”. Ela caminha puxando de uma perna, que é mais curta, e isso dá ao filme um ritmo particular, como sao particulares as cenas em que a princesa faz sexo com o peixe. Mas o que me leva a Tsai é o seguinte. Há um filme dele, teria de pesquisar para descobrir o nome – mas, enfim, como a retrospectiva do CCBB é completa, tem de estar lá -, em que ele posiciona a camera no ponto de encontro entre dois túneis de passageiros do metro. Vem aquela mulher que manca. Ela faz um longo caminho em direÇao à camera, e depois se afasta dela pelo outro túnel. A cena nao tem funÇao narrativa, mas é uma das que sempre me vem à memória no cinema de Tsai Ming-liang. E Tsai é um dos favoritos de “Joe”. Tenho divagado muito, depois de conversar com ele. O cara nasceu numa cidadezinha no interior da Tailandia. Que estranhos caminhos teve de percorrer para vir a ser reconhecido como um dos mais originais e misteriosos autores do cinema atual? Estava escrito? Onde, nas estrelas? Podia até estar (escrito), mas a passagem por Cannes foi visceral. Sem a Croisette, onde estaria “Joe”?