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Cultura » Onde fica o cinema de meu amigo?

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Luiz Carlos Merten

02 Março 2010 | 14h17

O título do post é uma pequena brincadeira com o filme famoso de Abbas Kiarostami, só que lá a pergunta é sobre a a casa do amigo. Jafar Panahi foi detido no Irã por seu apoio à oposição ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad. No mês passado, o cineasta havia sido convidado para o Festival de Berlim, para participar da retrospectiva dos 60 anos da Berlinale, mas as autoridades não lhe permitiram viajar. Não é de hoje que Panahi enfrenta problemas com o regime dos aiatolás, mas o cerco parece estar-se fechando, e não apenas sobre ele. Em Berlim, entrevistei Rafi Pitts, que participava da competição com ‘The Hunter’. O filme é sobre esse homem cuja mulher é morta durante uma manifestação antigovernamental. Ele se vinga matando policiais e vira alvo de uma caçada, no fim da qual a própria corrupção da polícia iraniana é colocada em xeque. De volta a Panahi, seu escritório foi revistado e o computador apreendido, esses procedimentos padrão para suspeitos de atividades subversivas, não importa onde. O curioso é que Panahi, não faz muito tempo, tentou entrar nos EUA para levar ‘O Círculo’, um de seus melhores filmes, acho que ao Festival de Nova York e o governo do então presidente George W. Bush lhe negou o visto. O cara consegue ser perigoso aos olhos de todo o mundo, e por seus filmes, exclusivamente. Em Berlim, Rafi Pitts estava cheio de expectativa de que ‘The Hunter’ pudesse passar no país. Ele me contou, inclusive, por que terminou fazendo o protagonista. No Irã, os filmes necessitam de aprovação para ser feitos e, quando isso ocorre, somente a equipe que foi habilitada pode participar da filmagem. O diretor se desentendeu com o ator, que foi despedido. Se entrasse com um pedido de aprovação para o novo intérprete, ele se arriscava a ver o projeto trancado ou, pelo menos, retardado. Preferiu fazer o papel, porque, afinal, seu nome já estava aprovado. A questão é – o filme vai passar? Panahi, Mohsen Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, todos esses diretores têm sido censurados no Irã. Mesmo quando seus filmes são premiados no exterior, não encontram cota de tela. Makhmalbaf, de uma maneira mais atuante, tem cerrado fileiras com a oposição. Rafi Pitts começa o filme dele com uma imagem emblemática – a dos guardiães da revolução iraniana armados sobre uma bandeira dos EUA, desenhada no chão. Hoje, a ideia é a de que a revolução foi traída por seus guardiães e um novo movimento nas ruas se fortalece na luta por liberdades. O cinema tenta refletir sobre o fenômeno, mas a situação não é fácil. Enquanto artistas são censurados e perseguidos, o cinema iraniano que faz sucesso nas telas locais é alienado como em qualquer lugar do mundo. Comédias inócuas, de preferência.