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Cultura » Onde fica a lógica? (2)

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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2007 | 09h54

Havia acabado de adicionar o post anterior, com o título de Onde Fica a lógica?, quando me dei conta de que ele caberia muito bem a um comentário sobre o comentário do Filipe, no post sobre o embate entre ‘comércio’ e ‘experimentalismo’ no cinema brasileiro. Filipe diz que não é contra o fato de que João Falcão, que gastou R$ 4 milhões para fazer A Máquina e teve um resultado pífio na bilheteria, busque mais dinheiro no mercado, só acha que ele não poderia requerer de novo R$ 4 milhões, mas deveria ter seu teto fixado em R$ 2,5 milhões. Não sou eu que fixo as normas dos concursos públicos, mas não vejo como se possa fazer isso, nas atuais condições que regem as leis de patrocínio de cinema no País. O Valente, que também leu (entendeu?) o post do jeito que quis, fez uma observação sobre o mercado não de captação, mas de exibição. Disse que os filmes miúras não chegam às salas, critica a pressão da Globo em impedir que os integrantes de seu elenco promovam filmes que não tenham a sua chancela. Ótimo, concordo em gênero e grau, mas isso não elimina a perversidade do sistema como um todo. João Falcão jura que, no limite, pode ter sido prejudicado pelo mesmo mecanismo. A Máquina não foi bem no primeiro fim de semana e os exibidores já o retiraram de cartaz, sem dar tempo ao boca-a-boca. Quando o filme saiu em DVD, ele teve uma resposta melhor das pessoas. Foi quando finalmente o público em geral, não os amigos, vieram comentar A Máquina com ele. Pouco ou muito, a verdade é que tomar dinheiro público para se fazer o que bem entende – seja o filme popular que não dá certo ou o miúra que se lixa para o ‘mercado’, porque é uma expressão ‘autoral’ – implica em certas responsabilidades. O dinheiro, mesmo que seja pouquinho, num concurso ínfimo, é do contribuente. Quem sabe a solução não seria criar um mecanismo tipo o ‘avant sur recettes’ da França, em que o diretor ganha um dinheiro antecipado que tem de repor com a bilheteria? A perversidade do mecanismo instalado no Brasil é esta. O diretor e o produtor podem ganhar dinheiro, se o filme deles estoura, mas não estou muito certo se irá perder, se o filme fracassar (algum deve ter perdido, claro. Não quero saber de exceção. Me interessa a regra). Acho que implicar os diretores na bilheteria seria interessante. O filme pequeno poderia tirar pouco dinheiro, o filme grande poderia tirar mais, mas todos teriam o rabo preso.

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