Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Onde fica a ética?

Cultura

Luiz Carlos Merten

24 Julho 2007 | 16h16

Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio) correu na frente e já postou, no blog dele, um texto sobre o absurdo ocorrido no teatro do Sesc/Santana, no sábado à noite, na apresentação da peça Salmo 91, de Dib Carneiro Neto, editor da Caderno 2. A peça é uma adaptação do livro Estação Carandiru, de Drauzio Varella. Por meio de dez monólogos, discute a chacina do Carandiru, tomando o mesmo partido do escritor (Drauzio) e de Babenco, quando adaptou o livro para o cinema. Todos adotaram o ponto de vista dos presos chacinados. Se alguém quiser tomar o da polícia, que escreva outro livro, faça outro filme, escreva (e monte) outra peça.
No sábado, uma ex-assessora do Coronel Ubiratan, que comandou a chacina, foi ver a peça acompanhada por um bando de punks, numa clara intenção intimidatória do elenco. No final, houve um princípio de tumulto. Seguiu-se um debate em torno ao tema direitos humanos. A ex-assessora disse que o coronel era defensor ardente dos direitos humanos. O punk, no que não deixa de ser uma contradição em termos, proclamou-se defensor dos direitos humanos! Acho até legal que uma peça consiga mobilizar tanto o público, provocando uma discussão tão viva. O que me assusta é a reação das pessoas. Não li o texto do Zanin nem os comentários, mas no almoço me disseram que está ocorrendo um debate acalorado. Muita gente em defesa do autor, da montagem, das vítimas do Carandiru. Mas também o pessoal que diz que preso bom é preso morto, que nem nos velhos westerns – índio bom é índio morto – e isso, eu, pessoalmente, não posso aceitar.
Tanto no livro como no filme e na peça, Drauzio, Babenco e Dib não douram a pílula. Os caras eram criminosos, ladrões, assassinos. Isso não justifica a chacina. Nos anos 30, o dr. Sobral Pinto, que não era comunista, invocou a lei de defesa dos animais para garantir melhores condições para Luiz Carlos Prestes, preso nas cadeias do Estado Novo, onde a tortura era a regra. Justificar a chacina sob a justificativa de que os caras eram criminosos é uma coisa tão irracional, tão bárbara, que não pode ser proposta de gente decente, me desculpem. É a mesma coisa dos boyzinhos de classe média que cobriram de pancada a trabalhadora no ponto de ônibus e depois se desculparam, candidamente – ah, mas então ela não era prostituta? Como se por ser prostituta, se ela fosse, lhes desse o direito de bater.
Existe uma coisa chamada ética que deve ser o limite entre o que fazemos e acreditamos e aquilo que condenamos nos outros. Eu não tenho menos medo de bandido que qualquer outra pessoa. Me horrorizo com essas histórias de gente que mata a sangue-frio. Chorei – juro! – quando entrevistei o Mutarelli, na estréia de O Cheiro do Ralo, e ele me contou que vinha de uma família de policiais. O pai, um dia, o levou à delegacia. Pediu que ele prestasse atenção no que ia ver – uma sessão de tortura. O pai pegou um preso e fez com que ele confessasse, à base de pancada, o que não havia feito. Há uma impunidade que se condena nos presos e que não pode falar para policiais. Se o tira mata a sangue-frio, se pratica extorsão, se… se… se…, é bandido. Isso parece filme de terror, Hostel, em que os riquinhos pagam para se divertir, esfolando, matando, fazendo o que querem com suas vítimas.
O cinema, principalmente o western, conta basicamente dois tipos de histórias – de aprendizado e de vingança. John Wayne, obcecado por vingança, corre atrás de scar, o chefe índio, para matá-lo em Rastros de Ódio. Ele também quer matar a sobrinha, porque acha que ela virou índia e índia boa é índia morta. Mas ele não consegue. Grande John Ford. Fazia do cinema um instrumento do humanismo. Como vou aceitar que se diga que preso bom é preso morto? Simplesmente, não dá. Não seria eu. seria alguém a quem iria detestar. Ou pior – desprezar.