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Luiz Carlos Merten

12 Janeiro 2012 | 14h17

SANTIAGO – Pela procedência, vocês já sabem onde estou. No Chile, desde terça à tarde. Estive
no Rio, no fim de semana, para fazer as entrevistas (mesa redonda e individual)
com Robert Downey Jr., por ‘Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras’. Achei o cara
melhor que o filme. Falamos de heróis. O dele não é Sherlock nem O Homem de
Ferro, mas seu pai, Robert Downey Sr., que foi cineasta de vanguarda.
Conversamos bastante sobre cinema autoral, sobre a relatividade de sucesso e
fracasso. Os filmes de Robert Downey Sr. eram pouco vistos, mas muito
apreciados. Sua fama, no meio independente – ou de vanguarda – era de gênio.
Como artista foi um sucesso. Do ponto de vista da indústria, um fracasso. Na
entrevista que o ‘Caderno 2’ já publicou, Robert Downey Jr. me falou de seu
filme preferido, na produção recente. ‘A Pele Que Habito’, de Pedro Almodóvar.
Por que? Pelo radicalismo da construção, pelos temas da perda e da insanidade.
Gostei do Downey Jr., do Downinho, mais até que poderia esperar. Confesso que
terminei passando estes dias sem postar primeiro por falta de tempo, depois,
por preguiça. Me baixou um Macunaíma… No Rio, vi, e revi, ‘Cavalo de Guerra’,
ou é ‘O Cavalo da Guerra’? Amo o filme do Spielberg e estou pensando em fazer
uma extravagância. Vou para a Europa uns dias antes de Berlim, com passagem por
Paris. Estou pensando em dar um pulo em Londres – ah, o meu mundo de fantasia,
como se fosse milionário – para ver o musical. Spielberg só se decidiu a fazer
o filme dele depois de ver a versão teatral. Deve ser muito boa. No Rio, tinha um monte de
entrevistas agendadas – algumas, ao vivo; outras, internacionais, por telefone.
E tive de escrever um texto sobre o Festival de Tiradentes, a grande vitrine do
cinema brasileiro de invenção. Volto a São Paulo (na segunda) e, na sequência,
lá vou eu para Minas, as Gerais. Estou aqui porque Gabriel Villela tem uma peça
– ‘Sua Excelência, Ricardo III’, com os Clowns de Shakespeare – no Santiago a Mil,
um festival de teatro internacional (e muito conceituado). ‘Ricardo III’ é
teatro de rua. Assisti à montagem de terça à noite no Parque Gabriela, na
periferia da cidade. Os ‘clowns’ adaptaram o texto para o espanhol, foram
emocionantes. A plateia não apenas aplaudiu em cena aberta. Ela sacava o que
vinha, as nuances do texto (e da encenação). ‘Ricardo III’ ainda não tem sala
em São Paulo – socorro, Danilo Miranda. Os paulistanos não podem perder essa jóia.
Hoje à noite vou ver Ariane Mnouchkine, com sua homenagem ao cinema. Estou em
férias, mas tenho enviado matérias diariamente para o ‘Caderno 2’. Não faz mal.
Eu gosto e ainda me divirto nas horas vagas. Por diversão, entenda-se também ir
ao cinema. Vi ontem ‘Violeta Se Fue en los Cielos’. O longa de Andrés Wood que
conta a história de Violeta ‘Gracias a La Vida’ Parra é uma co-produção com o
Brasil (a Bossa Nova Filmes). Surpreendi-me quando, logo no começo, aparece o
selo da Ancine. ‘Violeta’ concorre com ‘Um Conto Chinês’ ao Goya, o Oscar da
Espanha. E foi indicado pelo Chile para o próprio Oscar de Hollywood. A atriz
que faz o papel, Francisca Gavilán, representa divinamente a complexidade da
personagem. E canta! Andrés Wood, o diretor de ‘Machuca’, baseou-se no livro de
Angel Parra, filho de Violeta. Lembrei-me muito de meu amigo Tuio Becker. No
começo dos anos 1970, ele antes que eu – e minha ex, Doris Bittencourt –
percorreu essa América Latina, que amávamos tanto. Foi Tuio quem me apresentou a
Violeta Parra, Isabel Parra, Mercedes Sosa, Victor Jara, Los Jairas, Quilapayun.
Quero crer que ele teria gostado de ‘Violeta’. Eu viajei quando Francisca canta
‘Volver a los 17’. É uma música que amo, tanto ou mais que ‘Gracias a La Vida’
(que só entra nos créditos finais). ‘Despues de vivir um siglo…’ Santiago
está infernalmente quente. Penso muito na tragédia latino-americana, no golpe,
em Allende e Pinochet, enquanto passeio por essas ruas. ‘Misterios de Lisboa’
está em cartaz nos cinemas, em duas partes. Espero, entre (mais) um city tour e
uma ida a Valparaiso, poder (re)ver os filmes de Raúl Ruiz. Comprei ontem um
livro da Colección Cine Chile. Os autores são Valeria de los Ríos e Iván Pinto.
‘El Cine de Raúl Ruiz – Fantasmas, Simulacros y  Artifícios’. Valeria é PhD em literatura pela
Cornell University, Pinto é candidato a magíster em Comunicação e Cultura na
Universidade de Buenos Aires. A apresentação, na contracapa, diz que Raúl Ruiz
foi o maior cineasta que o Chile já teve. Também um dos mais prolíficos do
mundo e, provavelmente, o mais difícil de seguir. Assino embaixo e espero que o
livro me forneça chaves para o que ainda me desafia em Ruiz. E ah, sim, não posso deixar de registrar. A travessia da Cordilheira dos Andes, vista do alto, é um dos maiores espetáculos da Terra. Há 39 anos, Doris e eu a fizemos por terra, Era outono, as folhas das árvores estavam amarelas. São imagens que nunca vou esquecer.

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