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Cultura » Onde estão os Titãs?

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Luiz Carlos Merten

31 Maio 2007 | 12h49

Havia visto nas ruas de Paris cartazes que anunciavam o lançamento do CD da ópera cigana de Goran Bregovic, Karmen (com K e final feliz). Fui atrás do CD na Fnac e terminei dando uma circulada pela parte de DVD, que é enorme. Encontrei o DVD de Canibal Holocausto, de Ruggero Deodato, um DVD duplo contando o que eu, particularmente, nunca quis saber sobre aquele filme tão cultuado. Estou de brincadeirinha, claro. Dei-me ao trabalho de comprar, há um par de anos, um livro sobre os canibais do cinema italiano só para me informar um pouco sobre Deodato. Quando A Bruxa de Blair estreou, muitos críticos lembraram que, quase 20 anos antes, Cannibal Holocaust havia antecipado a estética de choque daquele filme – é verdade que sem a força marqueteira da internet. Esse é o tipo do elogio que não significa nada para mim, porque achei A Bruxa de Blair bem ruinzinho. Aliás, tão ruinzinho que cheguei a preferir o 2, cuja repercussão foi zero. Enfim, fui ver Canibal Holocausto quando o filme passou no CineSesc, naquela sessão maldita promovida por Carlos Reichenbach. Só tinha gente jovem na sala. De cabelos brancos, acho que só Carlão Reichenbach e eu. Quatro repórteres partem em busca das últimas tribos canibais. Ficam registros das imagens que eles colheram antes de ser comidos. O horror, o horror. Não gosto de nada daquilo, mas é cult e existem cada vez mais críticos dispostos a estudar (e valorizar) ‘autores’ como Deodato, Dario Argento e Lucio Fulci. Deus me livre deste último. Fulci é louco por vampiros e mortos-vivos, gostando de subverter os códigos de Hollywood por meio de cenas repugnantes. Haja estômago! Eu, de minha parte, sempre preferi Mario Bava e A Máscara do Demônio também estava à venda na Fnac, em Paris. Não sei se dá para comprar pela internet, tanto Canibal Holocausto quanto A Máscara estavam em oferta, por 9,90 euros cada. Para o meu gosto pessoal, não há comparação entre Bava e Deodato. O primeiro foi um grande diretor de fotografia, antes de virar diretor. Criou o fantástico italiano baseando-se em Gogol – e forneceu um papel que imediatamente transformou Barbara Steele em mito. Barbara foi a pré-Asia Argento, mórbida e sensual. Falo de toda essa gente para chegar, agora, a Duccio Tessari. Também saiu na França o DVD duplo de Os Filhos do Trovão, de 1961, com Giuliano Gemma, Jacqueline Sassard e Pedro Armendáriz. Dizem que a gente só se arrepende do que não faz e eu já estou arrependido por não haver comprado a fantasia mitológica de DT. Arrivano I Titani. Chegam os Titãs. Por volta de 1960, as fantasias mitológicas davam as cartas no cinema industrial italiano. Vittorio Cottafavi, Riccardo Freda, o próprio Mario Bava faziam todos aqueles filmes com Hércules, Ursus e Macistes. Em meados dos anos 60, os heróis mitológicos foram substituídos por pistoleiros e começou o primado do spaghetti western. Giuliano Gemma, que foi ator de Visconti – fazia o jovem Garibaldi de O Leopardo –, adotou o pseudônimo de Montgomery Clift e deu ao faroeste italiano seu primeiro grande êxito no Brasil, com O Dólar Furado. Me lembro que, na época, Hélio Nascimento, o grande crítico gaúcho, e eu piramos por Os Filhos do Trovão. O filme era (é) uma comédia de ação com mais invenção estética do que muito filme de autor consagrado. Me deu vontade de falar de Duccio Tessari. Quem ainda se lembra dele? Sergio Leone fazia seus faroestes operísticos com música de Ennio Morricone e DT desconstruía o spaghetti western por meio do humor – Uma Pistola para Ringo, Vivo ou Preferencialmente Morto e Tex (uma jóia para fãs de quadrinhos). Vocês me desculpem, mas neste blog não tem para Ruggero Deodato e suas mulheres escalpeladas vivas. Sou mais a Jaqueline Sassard, com quem Valerio Zurlini foi casado, no cinema de Duccio Tessari.

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