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Cultura » Onde está o clichê?

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Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2012 | 16h38

Meu amigo (e editor interino) João Luiz Sampaio adora me provocar. Agora mesmo, ele me atormenta todo dia dizendo que… Não importa quem, mas vários coleguinhas deploram os clichês de ‘Cavalo de Guerra’, o Spielberg que tanto amo. Os clichês de Spielberg, não, os clichês do ‘Cavalo’… Talvez seja a cena em que Peter Mullan recebe a reprimenda da mulher e o cavalo morde seu boné. Naquele making of a que me referi outro dia, que reúne a equipe do filme em torno de uma mesa, Emily Watson lembra o momento em que isso ocorreu e Spielberg reitera que todo mundo deve achar que foi preciso repetir o take umas 300 vezes, quando foi o cavalo que tomou a iniciativa e, de forma não planejada, mordeu o boné. Não, isso não é clichê. Quem sabe a cena em que a menina esconde o cavalo no quarto, ou que o avô abre mão do animal, ao reconhecer o elo ligando Joey a Albie? Volta e meia me pergunto o que é clichê no cinema? Muitas vezes, o que parece clichê, uma ideia ou situaçãqo já conhecida, ou já vista, é o que se pode chamar de ‘ferramenta’ ou de ‘linguagem’, que o diretor pode usar, de forma senão original, pelo menos de forma a atender a seus objetivos. E eu me pergunto por que só o clichê do cinema dito comercial provoca tanta indignação? E os clichês do cinema dito de arte? Já existe até uma classificação – o filme de festival, como o western , o musical, o thriller etc. Não levo a sério esse negócio de ‘clichê’, mas é curioso reportar-se à etimologia da palavra, que vem do francês – cliché – e designa a placa de metal, com imagem ou dizeres em relevo, obtida por meio de estereotipia (sacaram?), e que serve para impressão em máquina tipográfica. Clichê ficou sendo cada umaz das edições que um jornal divulga no mesmo dia – o primeiro, o segundo clichê etc. Por extensão, ficou sendo, em sentido figurado, o mesmo que chavão ou lugar comum. Mas eu continuo não atinando com o sentido pejorativo do termo. Por exemplo, amanhã estreia ‘A Separação’, filme de Asghar Farhadi que ganhou o Urso de Ouro em Berlim no ano passado (e o Globo de Ouro de filme estrangeiro no domingo). Gosto muito – isso sim, é um filme –, mas, antes de acompanhar o processo de separação do casal Nader/Nissim, o diretor fez ‘Procurando Elly’, que ganhou o Urso de Prata nas Berlinale. O filme é sofre o efeito que o desaparecimento de uma mulher provoca num grupo. Hummm. Lea Massari também desaparecia no começo de ‘A Aventura’ e o filme era sobre a busca e o efeito de seu desaparecimento em Gabriele Ferzetti e Monica Vitti. Poderia citar ‘n’ filmes onde isso ocorre. Seriam clichês? Não, porque o importante é o que o diretor quer dizer com isso. O importante em ‘Cavalo da Guerra’ é a paisagem do começo, a ‘pastoral’, e a sua progressiva transformação no inferno da terra de ninguém, da qual Joey e Albie vão surgir transformados. Clichê? Está no olhar de quem vê. Eu consigo ver outra coisa.