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Onde está o clichê?

Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2014 | 10h48

Tenho pouco contato com os críticos da Folha. Rodrigo Salem, Inácio Araújo, Ricardo Callil. Trabalhei com o último e hoje, mesmo escrevendo para a concorrência, o Ricardo trabalha na mesma editora com minha filha. Volta e meia nosso assunto é a Lúcia. Havia encontrado Callil na cabine de A 100 Passos de Um Sonho, mas ele saiu antes que eu e não trocamos nem aquela informação mínima – gostou? Não gostou? Eu gostei – muito. Tendo até a confessar que o filme de Lasse Hallstrom me inspirou a escrever minha melhor crítica dos últimos tempos. Ontem, meu amigo Dib Carneiro me disse que a Folha – o Callil – caiu matando em A 100 Passos. Festival de clichês etc e tal, não deixou pedra sobre pedra. Eu tendo a discordar, mas, como não li, não me sinto muito autorizado a polemizar. Só que o Dib acrescentou uma coisa – na crítica dele, Callil diz que Ratatouille é o melhor filme recente sobre gastronomia. Quanto a isso estou de acordo – Ratatouille é coisa de gênio, mas a verdade é que um dos motivos pelos quais gosto tanto de A 100 Passos é porque Lasse Hallstrom fez a versão live action da animação de Brad Bird. Aquela coisa do chef que veio da sarjeta (e que provoca indignação no pai de Hassan), como se ele fosse um rato, e o fato de nosso chef, como o crítico de Ratatouille, reencontrar o tempo perdido da sua infância com um prato simples (o crítico) e um tempero básico (o chef). É bom demais da conta (o filme). Já vi duas vezes e quero ver a terceira, a quarta… Sobre O Doador de Memórias, voltei ontem no fim da tarde à cabine da Paris para terminar de ver o filme de Phillip Noyce, que havia sido interrompido de manhã pela falta de luz. E aqui tergiverso. Pela manhã, enquanto estávamos no escuro – e sem que pudesse identificar as pessoas pelas vozes; a maioria nem conheço -, ouvi um monte de piadinhas falsamente inteligentes sobre a nova série. Fiquei ouvindo, sem me manifestar, porque se o fizesse seria linchado. Phillip Noyce filma bem e tem um conceito sobre a história que está contando. O problema – as piadinhas compunham um bestiário de clichês. E contra o clichê, não se pode usar o clichê, principalmente se queremos bancar os superiores. Sobre O Doador vou acrescentar uma coisa. O filme não só é interpretado como também coproduzido por Jeff Bridges. Não é um ator pelo qual tenha muito apreço. Irritei-me profundamente ao entrevistá-lo por True Grit, quando ele, para encher a bola dos irmãos Coen, caiu matando no faroeste original (de Henry Hathaway, um dos meus ícones), como se fosse lixo. O bom é que não consigo levar meu preconceito muito adiante. Jeff Bridges é tão humano, tão maravilhoso no mundo robotizado do doador de memórias que chorei quando lhe faltam as palavras para explicar ao garoto que o turbilhão interno que o consome é… o amor. O próprio garoto (quem?) é muito bom. Anos atrás, a Mostra trouxe Phillip Noyce à cidade. Depois de anos fazendo filmes de ação de sucesso (Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato, com Harrison Ford), Noyce colocou dinheiro do bolso num projeto pessoal sobre o apartheid de crianças aborígenes na Austrália. Foi o filme que o trouxe a São Paulo, um fracasso de público. Mas Geração Roubada era bom, como O Doador de Memórias – outro relativo fracasso, pois não rendeu o esperado – também é. Tudo bem se o público não captou. Mas os críticos…