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Cultura » ONDE ANDARÁ?

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Luiz Carlos Merten

11 Setembro 2006 | 12h41

Não foi resolução de meio de ano, mas escrevi, no fim de semana, o primeiro capítulo de um livro que, há tempos, me persegue. Sonho com esse livro, que seria uma viagem pessoal, minha, pelo cinema brasileiro. O Scorsese fez a dele pelo cinema italiano – e o documentário dessa viagem foi a última coisa boa que fez. Acho a maior graça quando os críticos de Hollywood põem nas nuvens filmes como Gangues de Nova York e O Aviador, mas deixa pra lá. O que importa é a viagem pelo cinema brasileiro.
Todos nós temos os filmes que nos marcaram. Eu não consigo gostar muito de Limite, gosto de Glauber até certo ponto (até O Dragão da Maldade, mais exatamente e descontado o primeiro longa, Barravento, que é plástico, mas não é bom). Amo Selva Trágica e tenho uma fascinação muito grande por filmes que sumiram na noite nos tempos. Vi, no recente Festival de Curtas da Zita Carvalhosa, A Balada das Duas Mocinhas de Botafogo, que é legal, mas o que o filme me trouxe, como um raio, foi o longa que Luiz Fernando Goulart adaptou do poema de Vinicius de Morais, em 1976 (com música do próprio Vinicius e Francis Hime). Marília e Marina, com Denise Bandeira e Kátia D’Angelo, não tinha apenas as duas irmãs naquela relação antropofágica e incestuosa. Como o documentário Opinião Pública, do Jabor, como Copacabana Me Engana, de Antônio Carlos Fontoura, tinha uma visão corrosiva da pequenez da classe média.
É assim que permanece na minha memória. Não sei, sinceramente, se o filme se mantém. Nunca o revi e a lembrança é coisa traiçoeira, mas a minha viagem pelo cinema brasileiro passa por filmes como este. Onde andará? Não é indiscrição nenhuma dizer que A Balada das Duas Mocinhas de Botafogo foi muito bem discutido e votado pelo júri que o Canal Brasil formou para o prêmio aquisição, no Festival de Curtas. O curta puxou o longa e o pessoal do canal confirmou que, há tempos e sem êxito, tenta trazer Marília e Marina para o acervo do CB. Daria, no mínimo, um Brasil Cult legal. Meu sonho é que virasse um Tesouros Brasileiros, que o filme, revisto hoje, fosse tão bom quanto permanece na minha memória. Até onde me lembro, votei, certa vez, em Marília e Marina como um dos melhores filmes de 1976. Foi o ano da morte do meu ídolo, Visconti, e O INocente estava na lista.

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