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Onde andam Kusturica e Spike Lee?

Luiz Carlos Merten

17 Junho 2017 | 09h52

Essa história de viajar é um dos prazeres da profissão, mas confesso que, às vezes, perco a noção. Fui conferir no Divirta-se – o guia do Estado – e tem um monte de filmes sem cotação. Alguns não vi, a maioria, sim. Preciso atualizar. Não sabia de duas iniciativas do Sesc. No Pinheiros, rola um ciclo, Tela Clássica, que homenageia grandes nomes. O homenageado do mês é Emir Kusturica e, nesta terça, 20, às 19 h, vai passar Gato Preto, Gato Branco, que nem é um dos meus favoritos, entre os seus filmes, mas é Kusturica, portanto, é bom. Estava na estrada, em Minas, com Gabriel Villela. Passou um caminhão com um refrigerador envolto num plástico que esvoaçava. Gabriel me disse – ‘Se fosse um filme do Kusturica, seria um véu de noiva e haveria uma orquestra cigana.’ A imaginação visual de Kusturica, a musicalidade de seu cinema. Vida Cigana, para mim, sua obra-prima, tem uma das mais belas trilhas que já ouvi. Numa época da minha vida, estava na maior deprê, achando tudo uma m… Botava Vida Cigana para rodar – e chorar. Nelson Sargento – o sol há de brilhar mais uma vez. Brilhou. Grande Kusturica. Desde seu maravilhoso perfil de Maradona – um megalô falando de outro -, não vejo nada dele. Fui procurar no IMDb – onde anda Kusturica? Há vários anos, sempre que Cannes vai anunciar sua seleção, me pego esperando por um filme dele. Kusturica tem pronto Na Via Láctea, em que atua com Monica Bellucci, e prepara If not Now, When?, Se não Agora, Quando? Já gostei, só pelo título. Outro Sesc, o Campo LImpo, promove até 27 um ciclo dedicado a Spike Lee. Também na terça, 20, às 20 h, passa A Hora do Show. Bamboozled! Frustrado porque não conseguiu emplacar programa de humor inteligente na TV, executivo negro vaio na contramão e resolve esculhambar com um programar de humor rasteiro e racista. Vira o maior sucesso! Hoje em dia – o filme é de 2001 – não sei se Spike Lee conseguiria fazer esse filme, face ao politicamente correto que domina corações e mentes, além de normas de produção, através do mundo. Sei que, na época – o filme passou em Berlim -, gostei muito. Damon Wayans, Jada Pinkett Smith, Michael Rapaport. No meu imaginário, A Hora do Show dialoga muito bem com Eu não Sou Seu Negro, de Raoul Peck, a partir do texto inacabado de James Baldwin. Ambos não deixam de discutir o estereótipo do negro na sociedade branca. Toda força aos ciclos do Kusturica e do Spike Lee. A propósito, Spike esteve em Cannes, em maio, participando dos debates no American Pavillion. Falou de seu filme na Netflix, Rodney King – sobre o taxista espancado pela polícia de Los Angeles em 1991, ponto de partida para protestos de rua que varreram as cidade e reabriram as feridas do movimento por civil rights -, chamou (Donald) Trump de maluco e disse que esse louco é capaz de iniciar uma guerra nuclear e foi muito aplaudido em outra investida contra o presidente. Comentando a imagem de Trump dançando na Arábia Saudita disse que só aquilo já valia um impeachment. ‘O cara não tem um osso dançante no corpo.’ Não resisto a terminar o post trazendo o escracho para o Brasil. Dib Carneiro me mostrou ontem uma piada do whatsapp, ou coisa que o valha – ‘Será que quando a Marcela nasceu, o Temer (Conde Drácula) já tinha morrido?’ Como é mesmo? Nóis sofre mais nóis goza.