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Cultura » Onde anda o pai de Sofia?

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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2007 | 22h20

Escrevi hoje de manhã o nome de Francis Ford Coppola, lembrando suas desavenças com Wim Wenders durante a realização de Hammett. E agora volto a Coppola para acrescentar uma informação que considero importante. Outro dia, falando nele, lamentei que tivesse abandonado a carreira, transferindo para a filha, Sofia, o encargo de carregar o nome da família. Fui corrigido – Coppola não apenas não parou de filmar como acaba de concluir Youth without Youth, que será seu primeiro filme em dez anos. Pois o pai de Sofia Coppola não andava parado, como induzi o leitor, erradamente, a pensar. Além do novo filme, acabam de sair, pela Zoetrope, novas versões (definitivas) de outros dois filmes do diretor. The Outsiders, Vidas em Rumo, que Coppola adaptou do romance de S.E. Hinton, sempre foi considerado um projeto comercial, que ele realizou porque precisava de dinheiro. Formando um díptico com Vidas sem Rumo, outra adaptação de Hinton, O Selvagem da Motocicleta, seria, em contrapartida, um grande Coppola autoral. Pois bem, Francis Ford acaba de restaurar a montagem original, de 1983, de The Outsiders, acrescentando os 23 minutos que foram cortados na época. A restauração, situada no começo e no fim do filme, reequilibra o conjunto, segundo quem já viu, e redefine os personagens de Ponyboy, o órfão traumatizado Johnny e o bad boy Dallas, interpretados por C. Thomas Howell, Ralph Macchio e Matt Dillon, em relação à gangue. Coppola deu a esta nova versão o sugestivo título de Outsiders – The Full Novel, o que não deixa de ser um título bizarro para um filme, mas esclarece sua intenção de restaurar a densidade que teria ficado ausente de sua adaptação de S.E. Hinton. Outra novidade do ateliê de Coppola em American Zoetrope é a terceira versão de Apocalypse Now, após as de 1979 (que dividiu a Palma de Ouro em Cannes com O Tambor, de Volker Schlondorff) e a de 2001, Apocalypse Now Redux (também lançada em Cannes). Chama-se Apocalypse Now: The Complete Dossier e restaura uma intenção original que havia sido abandonada, por exigência da indústria. Coppola sempre pensou em Apocalypse Now como um filme sem créditos. Ele gostaria que a ficha técnica fosse distribuída com o ingresso adquirido na bilheteria, mas os guilds de atores, diretores e roteiristas não permitiram. Coppola swempre achou que a explosão final, sobre a qual se projetavam os créditos, podia criar no público uma idéia equivocada sobre o destino (bombardeio) da cidadela de Kurtz (Marlon Brando) pelo Exército. O mais incrível, nisso tudo, é que não existem mais, hoje em dia, versões definitivas. Os filmes viraram (estão virando), cada vez mais, works in progress, aos quais os autores podem voltar depois de décadas. Só sei que fiquei morrendo de vontade de ver o novo Vidas sem Rumo. Não era um grande Coppola, mas, agora, quem sabe? Pode ser um aperitivo estimulante para Juventude sem Juventude.

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