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Luiz Carlos Merten

08 Agosto 2008 | 10h29

Até agora não descobri, mas tenho certeza de que vocês vão me ajudar. Perguntei ao Bira, meu colega do Caderno 2 Ubiratan Brasil, ‘cedido’ à editoria de Esportes do jornal para participar da cobertura da Olimpíada, quem vai fazer o filme dos Jogos Olímpicos de Pequim? Ele não sabia. Há uma longa tradição de filmes ‘olímpicos’, que começou justamente com o documentário de Leni Riefensthal sobre a Olimpíada de Berlim, em 1936. Seria chover no molhado ficar falando aqui da controvertida personalidade de Leni e da sua vinculação ao nazismo, de quem foi propagandista em ‘O Triunfo da Vontade’ e ‘Olimpíadas’. No segundo, o regime colocou recursos monumentais à disposição da diretora – todo tipo de teleobjetivas e gruas, além de técnicos como Walter Ruthermann – para que ela fizesse, da celebração do corpo humano, uma exaltação das realizações do Terceiro Reich. É verdade que aquele negro norte-americano maravilhoso, Jesse Owens, foi lá estragar a festa dos nazistas e também é verdade que Leni ficou tão fascinada por seus músculos quanto os dos atletas alemães que Hitler queria transformar em representações do super-homem ariano. Mas o que é aquele Jesse Owens? O deus do estádio… Por polêmico que seja, e é, ‘Olimpíadas’ criou um paradigma sobre como filmar o esporte. Esse mérito ninguém tira de Leni Riefensthal, mas eu confesso que tenho uma queda especial pelo filme da Olimpíada de Roma, em 1960, assinado por um diretor obscuro, Romollo Marcellini. A cena inicial, quando ele acompanha a tocha olímpica, é deslumbrante e tem tudo a ver com os épicos mitológicos que o cinema industrial italiano produzia na época. Quatro anos mais tarde, Kon Ichikawa dirigiu o filme da Olimpíada de Tóquio e dele eu guardo uma lembrança difusa. Me vem sempre a imagem dos arqueiros, quando Ichikawa e seus técnicos mudam o foco – ora no braço, ora na flecha ou no rosto, para documentar a tensão do atleta -, quase se ‘esquecendo’ de mostrar a disputa. Não me lembro se houve um filme da Olimpíada de 1968, mas a de 1972, em Munique, marcada pelo ataque do terror, não teve um diretor, mas oito, incluindo Milos Forman, Mai Zetterling e Arthur Penn. Chamava-se justamente ‘Vision of Eight’, a visão de cada artista sobre os jogos, e também tinha coisas notáveis, embora não se falasse muito do sangrento ataque à delegação israelense. Depois disso, não guardo mais referências de quem fez os demais filmes das Olimpíadas. Me lembro de fragmentos dos shows de abertura – aquela centena de pianos executando Gershwin, a Rapsódia in Blue, em Chicago, no limite do kitsch e do sublime. Aqueles pianos todos foram transformados em tambores chineses por Zhang Yimou, no início de seu show. Coisa mais perfeita, sincronizada. Era mais o Zhang Yimou de ‘Herói’ do que ‘Lanternas Vermelhas’. Levantei agora a cabeça e na TV passam as delegações. O que vamos ver nos próximos dias é o triunfo da vontade desses atletas, tentando – e alguns conseguindo – quebrar recordes. O problema, ou o maravilhoso, é que não importa qual recorde será quebrado agora. Amanhã, ou daqui a 50 anos, ele também será batido, com certeza, dentro desse processo que consiste no aprimoramento contínuo (ou constante) da ‘máquina’ humana. Não vou negar – acho muito bonito o filme de Hugh Hudson ‘Carruagens de Fogo’, que ganhou o Oscar de 1981 (o de filme, não direção). Hudson era tão bom. ‘Carruagens de Fogo’, ‘Tarzan’. Pena que nunca tenha se recuperado do fracasso – artístico e financeiro – de ‘Revolução’…