Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Olhem aí

Cultura

Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2010 | 09h00

Fernando Severo é peremptório – acho que nunca digitei essa palavra antes – ao afirmar que a Lume é a melhor distribuidora brasileira de DVDs. Acrescenta que a Lume anuncia seu Bresson favorito, ‘Um Condenado à Morte Escapou’. Em matéria de Bresson, cada um deve ter o seu. O meu é ‘Au Hazard, Balthazar’, que ganhou o título de ‘A Grande Testemunha’ no Brasil. Sempre que me lembro de Bresson, e é um autor que me fascina, as cenas que me vêm são sempre a da morte de Mouchette, caindo naquele rio para ascender ao estágio da graça, e a do asno, naquele campo. Deus, que aquilo é bonito! Lembro sempre de Van Gogh, dizendo ao irmão Theo que pintava na expectativa de que seus quadros consolassem as pessoas. É curioso. Diante dos ‘Girassóis’, no Metropolitan, senti o oposto de consolo, um sobressalto na alma, uma vertigem, que rompi em choro e tive de ser socorrido. Já a morte de Balthazar, sim, me produz esse consolo. O asno é crucificado como o Cristo. Morre para renascer em luz. Como é bonito, também, por sinal, o desfecho de ‘O Rei dos Reis’, de Nicholas Ray. O Cristo, Jeffrey Hunter, ressuscitado, projeta sua sombra naquela rede – pescador de homens. Misturando um pouco as coisas, gosto de ‘O Rei dos Reis’, um pouco porque o Sermão da Montanha é magnificamente filmado, por meio daqueles movimentos elípticos de câmera, mas principalmente porque Ray, o Rimbaud de Hollywood, era o poeta dos malditos. Seus personagens vivem uma danação interna. É com o Cristo, com a placidez dos olhos azuis de Jeffrey Hunter, que a angústia e o dilaceramento são acalmados, pacificados. Mauro Brider me pergunta se tive tempo de ver algum filme da mostra John Ford. Cheguei na quinta à noite do Rio, tinha matérias na sexta. Mas não houve nada que me interessasse particularmente (re)ver. Não gosto de ‘Domínio de Bárbaros’, The Fugitive, o único Ford que dispenso, e revi não faz muito tempo ‘Sangue de Herói’ e ‘Rio Grande’. O próprio ‘Legião Invencível’ havia visto em Monument Valley, projetado na parede do hotel, e foi um daqueles momentos mágicos de que vou me lembrar sempre. Gostaria muito de ter visto ‘Nas Águas do Rio’, Steamboat Round the Bend. Mas gostaria de aproveitar para dizer o seguinte. Recebi o livro/catálogo da mostra, estava escrevendo exposição, e achei maravilhoso. Uma bela seleção de textos e um cuidado muito grande com as fotos, a diagramação. Para baratear custos, a edição é um brochura, pulp. Imagino que aquele mesmo livro, sem tirar nem por, encadernado e com papel melhor, daria um lançamento de luxo em nada inferior aos da Cosac Naify. No limite, a despeito do visual, o que me atraiu foram os textos. Alguns já conhecia, a outros fui apresentado. Comecei a ler o de Jonathan Rosembaum, ‘Os Restos Decrépitos de Uma Causa Perdida’, sobre aquele Sul mítico que Ford carregava com ele, mesmo quando o criticava, e não consegui parar. A Mostra vai resgatar a programação de John Ford. Espero, sinceramente, que ‘Nas Águas do Rio’ volte.