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Olhem a coincidência

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2009 | 23h26

Quando comecei a digitar o post sobre ‘King Kong’, tentei me lembrar a qual filme assistira a seguir, na TV paga, sexta de manhã, ainda em Porto Alegre. Não me vinha o título e só depois de fechar o terminal, quando me preparava para sair, ao zapear na TV paga, me dei conta. Estava passando ‘Golpe de Mestre’, o segundo filme de George Roy Hill para o ‘casal’ Newman/Redford (o primeiro foi o western cult ‘Butch Cassidy’). Lembrei-me que o filme em questão era ‘Matadouro 5’, que Roy Hill realizou no começo dos anos 1970, entre ‘Butch’ e ‘Golpe’, baseado no livro de Kurt Vonnegut. ‘Matadouro 5’ ganhou o prêmio especial do júri em Cannes, 1972, um ano de grandes filmes, posto que ‘O Caso Mattei’, de Francesco Rosi, e ‘A Classe Operária Vai ao Paraíso’, de Elio Petri, dividiram a Palma de Ouro, Miklos Janczo ficou com o prêmio de direção (por ‘O Salmo Vermelho’) e Susannah York foi melhor atriz (por ‘Imagens’, um dos meus filmes preferidos de Altman). Tinha certeza que Roy Hill havia morrido, mas fui checar no Google e ele morreu exatamente hoje, 27 de dezembro, há sete anos. Que coisa! Quando isso ocorreu, já estava há mais de uma década sem filmar. Além do prêmio em Cannes, recebeu o Oscar (melhor filme e direção) por ‘Golpe de Mestre’ e outros tantos prêmios da Academia de Hollywood por ‘Butch Cassidy’. Não saberia dizer por que Roy Hill se desiludiu com o cinemão e foi ser professor de cinema, mas foi o que ocorreu. Revendo hoje um pouco de ‘The Sting’ (Golpe de Mestre), não pude deixar de assinalar como o filme é bom (e como sua trilha, com presença marcante do piano, é maravilhosa). Na sexta, já me impressionara com as partes que vi de ‘Matadouro 5’. Vonnegut era um autor fora de série e ‘Slaughterhouse 5’ é um de seus clássicos, contando a história de Billy Pilgrim que sobrevive ao bombardeio de Dresden pelos aliados, durante a 2ª Guerra, desilude-se com o consumismo na vida da Terra e é sequestrado pelos habitantes do planeta Tralfamador, que controlam as viagens no tempo. O filme mistura passado e presente e cria um tempo próprio, único, que é o das experiências do seu peregrino protagonista. Gostei muito dos atores, de Michael Sacks, que faz o protagonista, e Valerie Perrine, como a atriz pornô com quem ele divide seu cativeiro em Tralfamador. Depois de assistir ao filme, pensei um pouco sobre George Roy Hill e por que ele teria abandonado a carreira de cineasta. Mas terminei me esquecendo e só hoje, com ‘Golpe de Mestre’, foi que me lembrei de novo dele. Roy Hill teve uma carreira irregular, mas nela predominam os bons filmes. ‘Positivamente Millie’ é ótimo musical com Julie Andrews e Mary Tyler Moore e, além dos dois megasucessos com Newman & Redford, ele também assinou o já citado ‘Matadouro 5’ e ‘Quando as Águias Se Encontram’, uma bela homenagem aos velhos heróis da aviação. Roy Hill também dirigiu ‘Um Pequeno Romance’, com a garota Diane Lane, sobre casalzinho que foge para Veneza para realizar um sonho, passando sob a ponte dos Suspiros para, de acordo com a tradição, permanecer unido para sempre. Laurence OLivier faz o velho que os ajuda e o filme é dele, que rouba cada cena. Fui agora ao dicionário de Jean Tulard e ele diz que Roy Hill foi ator da Irish Company e da Shakespeare Company antes de virar diretor respeitado na TV (com ‘Billy Budd’, que se baseia em Melville e é um texto genial, e ‘Julgamento em Nuremberg’, a telepeça de Abby Mann que Stanley Kramer verteu para o cinema). Fiquei com vontade de rever ‘Matadouro 5’ inteiro – será bom como um todo ou só em partes, como me parecera, quando o vi na estreia? Mais ainda me impressionou a coincidência, o fato de Roy Hill ter morrido ‘hoje’, em 2002.