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Olhares brasileiros

Luiz Carlos Merten

25 Maio 2007 | 11h59

CANNES – A quarta-feira deveria ter sido o grande dia do Brasil aqui em Cannes, com a exibição da cópia restaurada de Limite, de Mário Peixoto, na seção Cannes Classics. Ponho no passado imperfeito, deveria, porque não foi. Mário fez um filme adiante de sua época em 1931 e o mais impressionante é que Limite continua desconcertante para as platéias em 2007. Metade da sala foi abandonando a sessão, uma verdadeira romaria. O resultado é que ontem terminou sendo o dia do Brasil no 60º festival. Começou com Walter Salles, no Palais. O festival tem exibido episódios de Chacun Son Cinéma, o filme que o presidente do evento, Gilles Jacob, encomendou a mais de 30 diretores de todo o mundo para comemorar os 60 anos de Cannes. Todo mundo ficou desnorteado quando entrou a informação – Extraído de Chacun Son Cinéma, Lettre à V. Não há, em A Cada Um Seu Cinema nenhum episódio com este título. A carta a V, na verdade, é a carta que Walter Sallres envia a seu filho Vicente, de seis meses, que não está nem aí para Cannes. A carta expressa o desejo de um pçai de que seu filho ame tanto o cinema como ele. Inclui cenas de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos; de O Homem de Aran, de Robert Flaherty; e Limite, de Mário Peixoto. Em apenas três minutos, Waltinho reserva a surpresa para o final. Ele escolheu o primeiro filme para Vicente ver no cinema – entra a cena de O Grande Ditador em que Carlitos, metamorfoseado em Hitler, brinca com o mundo, que adquire o formato daquela bola. O bebê se encanta com aquele grande brinquedo na tela. O Palais quase veio abaixo! Segundo ponto para Walter, que no episódio de Chacun Son Cinéma, o que ficou no filme exibido anteriormente – a embolada com Castanha e Caju -, também já havia sido o mais aplaudido nas sessões oficial e de imprensa. Emocionado com o curta de WS, que não merecia ter sido seguido pelo longa de Catherine Breillat, fui ver Mutum, de Sandra Kogut, no encerramento da Quinzena dos Realizadores. Não tenho tempo, aqui, agora, de explicar meus motivos, mas tenho a impressão de haver assistido ao melhor filme brasileiro de 2007. Mutum é fora de série! Sandra Kogut, uma diretora jovem, urbana, adentra o universo de João Guimarães Rosa e propõe a gênese de um de seus personagens míticos, Miguelim. O filme conta a história da relação deste menino, Tiago, com o irmão, Felipe; com a mãe, que o mima; e com o pai, que é duro com ele. Parece pouco, mas é tudo. Sandra construiu seu filme nos detalhes. Tiago é míope. Só vê o mundo sensorial, que lhe está próximo e que pode tocar. A história de Mutum é a da construção do olhar do garoto, mas também é uma história da construção da nossa identidade vista pelo olhar sensível da diretora. Gostei demais! Espero que vocês gostem também, na estréia que deverá ocorrer mais para o fim do ano.