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Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2006 | 13h06

Cá estou de volta, falando de novo da Xuxa, cujo novo filme, Gêmeas, estreou na sexta-feira. Não sou louco de ver um filme da Xuxa com a mesma expectativa que tenho pelos diretores autorais que admiro. Afinal, é um tipo de produto de consumo, para ser visto e, bye-bye!, esquecido, a menos que faça tanto sucesso que vire referência, como Lua de Cristal, que teve direção da Tizuka Yamasaki. Mas não há como negar – o novo filme da Xuxa, que estreou anteontem, é melhor (menos ruim?) que os anteriores pelo simples motivo de que, ao colocar a apresentadora na pele de gêmeas, o diretor Jorge Fernando pode brincar com o mito, o que é sempre saudável, sem arranhar a imagem consagrada da sua estrela. Patrícia Travassos, que escreveu o roteiro, havia acabado de ler O Diabo Veste Prada, que o Diler Trindado, produtor de Gêmeas, lhe disse que ia virar filme com Meryl Streep. Sem ter visto o Prada do cinema, que não estava pronto, Patrícia incorporou elementos do livro que são divertidos, até mesmo pela possibilidade que oferecem de se comparar Hollywood com Hollywood ‘made’ no Brasil. Quando a gente não é o melhor, a gente esculhamba – lembram da velha lição de Sganzerla em O Bandido da Luz Vermelha? Continua valendo. Mas o que eu quero registrar, aqui, é o seguinte. Na coletiva, o garoto que faz o chefe da bateria – o mesmo que namorava Maria João em Belíssima, a novela do Sílvio de Abreu – disse que veio do Nós do Morro e achava importante que o cinema brasileiro mostrasse, como aqui, um olhar diferenciado sobre a favela e o morro, sem bater sempre na tecla da violência. Entendo a preocupação de quem tem origem num meio que se presta a tanto preconceito (ou que é motivo de tanto preconceito) e que quer mostrar o básico – a favela não é habitada só por traficantes e garotos cooptados pelo crime. A questão me parece não é tanto enfatizar a gente do bem, honesta e trabalhadora que todo mundo sabe que vive na favela, mas o como mostrar. Aquela visão idílica de gente dançando, tocando, com florzinha e passarinho, vira uma paródia voluntária ou involuntária (com Jorge Fernando, nunca se sabe). Ou então, é aqui que quero chegar, passa o que não deixa de ser um olhar ‘estrangeiro’ como aquele contra o qual Lúcia Murat investe em seu documentário em cartaz em São Paulo (e penso que no Rio também).