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Luiz Carlos Merten

23 Junho 2008 | 12h24

Tiago me propôs, ou nos propõe, um interessante tema de reflexão. Como está lendo ‘Memórias de Um Sargento de Milícias’, ele pergunta se existem filmes que façam a análise das relações entre o lícito e o ilícito que permeiam o livro de Manuel Antônio de Almeida. É curioso que justamente Leonardo, o futuro sargento, esteja no centro do romance ‘Era no Tempo do Rei’, de Ruy Castro, que trata das aventuras dele com o futuro imperador Dom Pedro I, no quadro de um Rio que começa a se transformar, com a chegada da família real portuguesa, no começo do século 19. Achei o livro bem legal – e até que daria um filme gostoso –, mas de alguma forma ele me pareceu um rascunho para algo maior, que Ruy Castro não escreveu, embora estejam lá certas características que lhe são próprias – a pesquisa acurada, o humor etc. Tiago não sabe, evidentemente, mas o tema tem me perseguido nos últimos dias. Jornais do Rio – ‘O Globo’ – iniciaram uma polêmica deflagrada por Walter Salles, em que ele, que fez ‘Linha de Passe’ sem lei de incentivo, estimula o merchandising bem aplicado, mas crítica a combinação da Lei do Audiovisual com merchandising da empresa que já está aplicando no filme. Não li a matéria em profundidade. Peguei a essência do título, do olho e da legenda das fotos, mais um quadro de repercussões, e espero ter pegado certo. Waltinho bateu duro no Festival do Rio, que tem até um prêmio de market share, ou qualquer coisa assim, um prêmio de merchandising. Minha amiga Walkiria Barbosa defende-se que é perfeitamente legal, e nem me passaria pela cabeça que ela, responsável e séria como é, estivesse praticando ilegalidades. Walkiria investe numa linha de entretenimento – sua empresa chama-se Total Entertainment, e é óbvio que esse tipo de cinema colhe pancadas da crítica, que prefere o cinema de autor. Aqui mesmo no blog, tem gente que detesta ‘Se Eu Fosse Você’ e não perde a chance de vomitar na comédia de Daniel Filho, que está entre as cinco maiores bilheterias da Retomada e foi um dos filmes sobre os quais escrevi no livro ‘Cinco Mais Cinco’. (Esse povo vai ter de engolir a seqüência, ‘Se Eu Fosse Você 2’, que Daniel conclui atualmente, mas esta é outra história.) Escrevi – com Rodrigo Fonseca e Cacá Diegues – com grande prazer o livro ‘Cinco Mais Cinco’, acrescento. Aliás, não há um daqueles supersucessos de bilheteria que me seja desagradável. Não gosto de ‘Carandiru – O Filme’, mas aprecio a direção de cena forte do Babenco. Gosto de ‘2 Filhos de Francisco’, e vocês já me espinafraram por isso. Tenho sido, desde a primeira hora, um defensor de ‘Cidade de Deus’, e isso desde aquele debate (estapafúrdio?) da ‘estética versus cosmética da fome’. Acho bem divertido o ‘Se Eu Fosse Você’ e, mais ainda, ‘Lisbela e o Prisioneiro’, do qual gosto muito. Mas a questão levantada pelo Waltinho é interessante. No fundo, ela tem a ver com algo muito mais amplo que ocorre no País. Não basta ser legal, é preciso ser também ético. Acho um tema bem pertinente e o cinema do Waltinho trata justamente sobre isso. De ‘Central do Brasil’ a ‘Linha de Passe’, com maior ou menor felicidade, mas sempre com seriedade, Walter Salles é um autor preocupado, ou empenhado, em discutir a construção da ética num País de miseráveis, onde, pelas próprias condições da sobrevivência, ela tende a ser flexível. A própria origem de Waltinho, o nosso príncipe, talvez lhe favoreça a integridade – além de seu pai banqueiro, ele ainda teve o Santiago como farol. Mas justamente esse comportamento é uma exceção. Ricos e poderosos no Brasil tendem a querer ampliar seus privilégios, e dane-se o resto. Estava com esse debate entalado na garganta. Afinal, ele envolve pessoas que respeito e admiro. Se fossem outras pessoas, até outros diretores de festivais, não me preocuparia tanto. Mas que a questão é relevante, é.