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Cultura » Olhaí, Régis, o nadador

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Luiz Carlos Merten

05 Julho 2010 | 18h10

Régis diz que assistiu a ‘O Enigma de Uma Vida’ no fim de semana e me pede uma palavra sobre o filme de Frank Perry com Burt Lancaster. Chama-se ‘The Swimmer’, O Nadador, e a lembrança mais vívida que guardo deste drama é a presença de Janice Rule, embora o desfecho seja impressionante. Volto a ele daqui a pouco.  Sinceramente, Régis, nunca achei que ‘O Enigma de Uma Vida’ fosse um bom filme, mas é certamente curioso e dispõe de muito boa reputação. Se gostaste, já é um alento. Tentarei vê-lo. Todo mundo elogia a forma física de Burt Lancaster e como ele é bom ator, criando um personagem cujo arco dramático é muito extenso. Acho o psicanalismo meio elementar – a presença dominante da água – e o caráter simbólico/pedagógico da história, em si, me parece pesado. Lancaster é o homem que faz um caminho sinuoso na volta para casa. Vai nadando de piscina em piscina da sua vizinhança. Os sucessivos mergulhos na água equivalem a ‘passagens’ da sua via-crúcis, mergulhos que dá na própria vida (passado, presente), tentando decifrar o enigma da existência. Lancaster representa, no filme, a imagem do sucesso. As casas com piscinas fornecem o quadro da vitória pessoal e profissional de todos aqueles personagens, mas ninguém parece feliz no filme. As pessoas ricas, homens e mulheres, são todas amargas e infelizes. O dinheiro, para Perry, não é tudo. Ao chegar em casa, Lancaster encontra a porta fechada. Encolhe-se em posição fetal, encerrando um ciclo. Sempre achei, e pode ser que me engane, pois há tempos não vejo nenhum dos dois filmes, que Robert Altman fez ‘Três Mulheres’, também com Janice Rule, como reação a ‘The Swimmer’. O filme de Perry é de 1968 e pertence a um momento particular na evolução do diretor. Ele foi aluno de Lee Strasberg no Actor’s Studio e chegou a Hollywood pela via do teatro. Nunca vi seu filme de estreia, mas ‘David and Lisa’ possui a fama de clássico independente, numa época, os anos 1960, em que ser indie significava ser alternativo de verdade ao cinemão. ‘O Nadador’ seria, ou foi, a prova de fogo de Frank Perry no cinema de estúdio. O filme tem roteiro da ex-mulher dele, Eleanor, uma freudiana de carteirinha. Tudo o que escreveu tem um pé na psicanálise. Perry filmou, até aí tudo bem. Os problemas começaram na montagem. O diretor se desentendeu com os produtores, Lancaster, quase sempre solidário com seus realizadores, não o apoiou e Sydney Pollack foi chamado para finalizar a edição. Para ‘fechar’ sua montagem, Pollack teve de filmar cenas adicionais, por isso o filme até hoje é um híbrido de quem não se sabe a autoria. Perry fez depois ‘O Último Verão’ e anos mais tarde filmou o diário de uma dona de casa louca, ‘The Diary of a Mad Housewife’, que no Brasil se chamou ‘Quando nem Um Amante Resolve’, seguido de sua desmistificadora cinebiografia de Doc Holliday, ‘O Massacre dos Pistoleiros’. Quando acabou o casamento com Eleanor, sua carreira desandou. Ela parou de escrever seus roteiros e Perry foi ladeira abaixo, assinando aquele grand guignol horroroso sobre Joan Crawford (‘Mamãezinha Querida’) e, pior ainda, aquele cult – ia escrever ‘clássico’ – camp intitulado ‘Monsenhor’, com Christopher Reeve, que é um dos dramas mais risíveis já feitos. Nada disso desautoriza que ‘O Enigma’ possa ter fascinado o Régis. Fui conferir e Leonard Maltin, que às vezes acerta, dá três e meia estrelas, num total de cinco, ao filme.

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