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Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2009 | 09h21

Realmente, andei tendo problemas com a postagem do blog nos últimos dias. Tudo o que postava era automaticamente duplicado, sei lá por que, mas a verdade é que meu computador do jornal está dando pau. Os técnicos já vieram aqui duas vezes, mas até agora nada. Às vezes, estou digitando um texto e o objeto fecha, sem mais nem menos. Já perdi muito texto assim e no blog, então, nem se fala. Agora, dei uma limpada e cortei os duplos, mas isso me criou um problema no post ‘Livres Associações’. Havia comentários nos dois. Deletei o post com o seguinte comentário do Mauro Brider, leiam.

Olá Luiz. Uma pergunta direta sobre dois filmes que são diferentes, mas falam sobre o mesmo tema: você prefere Limite de segurança (Fail safe), de Sidney Lumet ou Dr. Fantástico, de Kubrick ? Os dois filmes, se não me engano, são do mesmo ano, 1964 e falam praticamente sobre os mesmos temas dos perigos da guerra fria. O de Lumet, num enfoque sério e Kubrick numa sátira mordaz. Embora eu goste do “thriller” de Lumet, acho a comédia de Kubrick mais eficaz, e você ?
Um abraço

O Mauro pergunta, mas a resposta dele já carrega a opinião do cinéfilo em geral. O filme do Lumet é como uma reportagem dramática eficiente, mas não muito mais do que isso. Inclusive, pode ser falha minha, mas nesta linha de denúncia sobre e contra o establishment militar sou mais ‘O Último Brilho do Crepúsculo’, de Robert Aldrich, ou então ‘Sete Dias em Maio’, de John Frankenheimer, que é contemporâneo dos filmes de Lumet e Kubrick. ‘Limite de Segurança’ teve, inclusive, uma versão para TV, em 2000, dirigida em tempo real por Stephen Frears (cineasta de quem gosto mais do que Lumet, mesmo reconhecendo as coisas boas que o último fez). ‘Doutor Fantástico’ possui outro grau de elaboração e é realmente uma obra-prima de humor negro, como o classifica Jean Tulard no ‘Dicionário de Cinema’. Kubrick tinha a pretensão de ligar seu nome a uma obra-prima de cada gênero e em todos que frequentou acho que deixou sua marca, mesmo que, eventualmente, não sejam obras-primas. ‘Doutor Fantástico’ vai além da denúncia sobre a bomba, busca uma transcendência. Sei que a palavra parece excessiva (ou pretensiosa), mas em se tratando de Kubrick… Como todo filme do grande autor, ‘Doutor Fantástico’ é sobre a linguagem, sobre a dissolução da palavra como elo que une os homens. Se vocês forem investigar a obra do Kubrick, verão que ela é toda uma reflexão sobre a palavra – os discursos cruzados de Spartacus e Crassus, as tentativas de diálogo dos dirigentes dos EUA e da URSS em ‘Doutor Fantástico’, a palavra emperrada de Jack Nicholson em ‘O Iluminado’, o linguajar obsceno do sargento instrutor de ‘Nascido para Matar’ etc.