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Cultura » Olhaí, Mauro, ‘Os Meninos da Rua Paulo’

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Luiz Carlos Merten

20 Julho 2010 | 15h28

Mauro Santos com certeza vai ficar feliz. Acabo de ler o comentário dele no post anterior, dizendo quanto foi marcado pela leitura de ‘Os Meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnár. O Paulo vai adorar saber que o filme que Zoltán Fábri adaptou do livro está sendo lançado em DVD pela… Cult Classics? Ponho aqui uma interrogação porque recebi o pacote de lançamentos ontem. Abri, registrei os DVDs  – tem também  o cult GLS ‘Pink Narcissus’ -, mas confesso que guardei mais os títulos do que a distribuidora. Quem for às enciclopédias de cinema em busca de informações sobre o diretor – pode ser ao ‘Dicionário de Cinema’ de Jean Tulard, também -, vai encontrar referências bem entusiásticas. Fábri é quase sempre apontado como o diretor que anunciou o degelo pós-stalinista no país, prenunciando a geração de Miklos Jancsó, embora a diferença de idade entre eles seja mínima (quatro ou cinco anos) e Jancsó não tenha estreado muito tempo depois dele na direção. ‘Os Meninos da Rua Paulo’ teve outras versões no cinema. A de Fábri chamou-se, no Brasil, se não me engano, ‘Esta Rua É Nossa’. Narra as batalhas de um grupo de pré-adolescentes em Budapeste, no fim do século 19. Eles defendem seu território, um terreno baldio que usam como base de operações, para brincar de clube, fingir participar de um exército, arremedar eleições e jogar péla. O ‘grund’, como esse terreno é conhecido, é reclamado por outro grupo e as duas facções entram em guerra. Existe um significado metafórico muito rico nesta história, mas no meu imaginário ela está muito ligada a outros filmes e livros. Por excemplo, a ‘A Guerra dos Botões’, de Yves Robert’, que vi no antigo Cine Ipiranga, ainda garoto, em Porto Alegre, e também a ‘Cuore, Lembranças do Coração’, que Luigi Comencini adaptou do livro de Edmundo de Amicis. Quem ainda lê De Amicis? A história de Enrico, o menino rico que cursa a escola pública, também no fim do século 19, e que encontra nela, entre colegas mais pobres, as circunstâncias favoráveis à formação de seu caráter, me marcou muito e o filme é um dos mais belos de Comencini sobre a infância, embora, nesta seara, sua obra-prima seja ‘L’Incompresso’, Quando o Amor É Cruel, que fez em 1967 ou 68, bem antes de ‘Cuore’, que é 80 e poucos. Todos esses livros e filmes meio que se embaralham nas minhas lembranças e me trazem até ‘O Pequeno Nicolau’, de Laurent Tirard, que tanto me encantou e que ainda está em cartaz. Sobre Zoltán Fábri, especificamente, foi ele que botou o cinema húngaro no mapa, nos anos 1950, sendo premiado em Cannes, depois em Karlóvy-Váry. Cenógrafo e diretor de arte de todos os seus filmes, sempre foi atraído por temas sociais que tratava com rigor crítico, mas por meio de um estilo muito elaborado e eu diria até preciosista, principalmente no que se refere à construção dramática. Ainda não (re)vi ‘Os Meninos da Rua Paulo’, mas gostaria de acreditar que, ao fazê-lo, o filme me devolverá aos meus verdes anos, à ‘Guerra dos Botões’ e a ‘Cuore’. Bom filme para nós, Mauro.