Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Olhaí, Mauro

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2010 | 14h10

Mauro Brider pega carona num comentário para perguntar minhas impressões sobre um velho Clint Eastwood, ‘Interlúdio de Amor’. Chama-se ‘Breezy’ no original, e é de 1973. O terceiro filme de Clint foi o primeiro e até hoje é um dos raros em que ele não atua. Liga-se mais a ‘Play Misty for Me’, Perversa Paixão, o primeiro, do que ao segundo, seu primeiro western, ‘O Estranho sem Nome’, mas possui características próprias e até originais. William Holden faz o coroa que se apaixona por uma garota, Kay Lenz. Até certo ponto, a história parece banal, mas esse retrato de um cinquentão apaixonado na época me seduziu e eu me lembro de ter escrito um texto bastante elogioso (na ‘Folha da Manhã’, de Porto). O que me encantava era a mise-en-scène. Andava muito interessado em mostrar que, no cinema, não são a história nem o tema que definem o alcance da realização – ‘tout est dans la mise-en-scène’, como dizia o francês Michel Mourlet, referindo-se à forma como o autor utiliza a ligação entre ator e cenário como representação do homem no mundo. A casa que Holden e a jovem amante ocupam é de vidro. A ligação é exposta aos olhos do mundo. Ele se sente vigiado, devassado, invadido. Na época, muito jovem, não sei se o que me impressionava era o filme, propriamente dito, ou a análise que dele fazia. Daquela primeira fase de Clint, é um dos filmes de que mais gosto, com ‘Bronco Billy’, sobre um mocinho fajuto que se apresenta num circo cuja lona reproduz a bandeira norte-americana, e ela está toda remendada, como a própria sociedade dos EUA, em crise por volta de 1980 (e, por isso mesmo, o republicano Ronald Reagan chegou à Casa Branca, na esteira do democrata Jimmy Carter). E havia o William Holden. Que magnífico ator era William Holden! Na maioria das vezes, ele nem representava (sub-representava). Menos é mais. Havia em Holden uma amargura, até um cinismo, que tornam certos papeis emblemáticos. Não foi por acaso que fez tantos grandes filmes, com tantos grandes diretores – de Billy Wilder a Sam Peckinpah, passando por Rouben Mamoulián, Otto Preminger, Robert Wise, Joshua Logan, no tempo em que era grande, e até John Ford (em ‘Marcha de Heróis’) e mesmo que, por sua ‘modernidade’, ele estivesse longe de ser o fordiano típico.

Encontrou algum erro? Entre em contato