Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Olhaí, Mário

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Maio 2008 | 15h27

RECIFE – Mário Kawai lembra que amanhã, aí em São Paulo, no ciclo que o Sesc Pompéia dedica à contracultura por volta de 1970 (e um pouco antes), passam dois filmes esenciais. Um é mais esencial que o outro, ‘Blow-Up’, de Michelangelo Antonioni, que no Brasil foi lançado com outro título -‘Depois Daquele Beijo’. O outro é ‘Performance’, de Nicolas Roeg, um diretor via de regra subestimado, mas cujos filmes eram bem interesantes. Roeg foi fotógrafo em filmes do ciclo que Roger Corman dedicou a Edgar Allan Poe. Este filme e ‘Walkabout’ – como se chamava em português, ‘A Grande Caminhada’? – sempre me fascinaram como trajetórias de ‘iniciação’ (depois, descobri que Jeanm Tulard também os via asim, em seu ‘Dicionário de Cinema’). Em Paris, de volta do Festival de Berlim, em fevereiro, fui (re)ver ‘Zabriskie Point’, numa cópia zero bala. Antonioni não era mole. Fiquei impresionado com a beleza do filme, mais do que isso, com o sentimento de desolação que ele passa, pois Antonioni já estava prevendo ali a desagregação do libertário movimento de contestação dos jovens da geração 68. E a trilha… Meu Deus! O que é a trilha de ‘Zabriskie’, o que é aquela dupla formada por Mark Frechette e Daria Halprin? Ela, não sei se fez mais alguma coisa. Ele, tenho certeza de que morreu jovem, não me lembro como. Me deu vontade de rever também ‘Blow-Up’, que tem aquela riqueza muito grande de linguagem. Lembro-me – vocês talvez não saibam -, mas quando o filme estreou os ‘críticos’ (eu era bem principiante) reclamavam do que para eles era a falsidade do final, do jogo sem bola. Sempre amei aquilo, que me pareceu maravilhoso na época e até hoje me perturba. E eu sempre achei genial a escolha do ator. David Hemmings tem aquela cara em que ressaltam os olhos, meio na lateral, como de inseto. O filme é, entre outras coisas, sobre o ‘ver’. O cara – um fotógrafo – intermedia o mundo por meio de sua câmera. Quando o corpo desaparece, desaparece o crime e a alienação – tema verdadeiro de Antonioni, a alienação da burguesia, mesmo na sua famosa trilogia da solidão e da incomunicabilidade – é que leva à metáfora do jogo sem bola. Grande filme, e com aquele ator só olhos e que, mesmo asim, não enxerga. Que coisa! Adoraria estar aí em Sampa para ver ‘Blow-Up’, mas saio do Recife só na madrugada de segunda (o festival termina amanhã à noite). Vejam por mim, por favor.