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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2010 | 11h14

Existem coisas que não sei explicar. Estava limpando minha caixa de e-mails, para poder validar comentários, quando me surgiu este que já tem algumas semanas. É do Dárcio, que pega carona no fenômeno ‘Atividade Paranormal’ – no Brasil, nem foi tão fenômeno assim – para perguntar o que acho, no geral, do cinema de horror. E o Dárcio me pede notícias de Gene Hackman, ator a quem muito admira, e também me pergunta se eu, que gosto tanto de cinema, seria capaz de tatuar alguma coisa ligada a essa paixão no meu corpo, como ele ouviu dizer que uma entusiasta da Mostra fez, tatuando a assinatura de David Lynch na própria pele. Vamos por partes, como diria o esquartejador.
Gene Hackman – Não seria louco de dizer que não o acho um bom ator, mas sempre entendi porque Hackman não é um astro e, na verdade, seu nome é daqueles que não agregam na bilheteria. Ele não é ‘simpático’ e, por isso mesmo, seus melhores personagens ou são irritantes (o policial de ‘Operação França’) ou são decididamente antipáticos (o xerife de ‘Os Imperdoáveis’). Não é , realmente, um cara de quem eu sentiria falta, embora goste dele em muitos filmes, pela própria circunstância dos papéis (o irmão de Clyde Barrow em ‘Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas’, o andarilho de ‘O Espantalho’, o patriarca da excÊntrica Família Tennenbaum’ etc). Procurei no Google e, em vários sites, encontrei a última referência a filme com Gene Hackman datando de seis anos atrás, e foi ‘Uma Eleição Muito Atrapalhada’. Alguém tem notícia do cara? Agora, não é só o Dárcio que quer saber, não.
Tatuagem – Never, nunquinha. Sinto muito se vou decepcionar a galera, mas tenho a maior aversão a tatuagens. Até vejo um programa sobre tatuadores na TV e acho interessante como essa cultura é disseminada e como os próprios caras alertam para o que não é provisório, mas definitivo. Achei curioso, no outro dia, ver o tatuador tentando demover uma garota de colocar a imagem de um anjo. Recentemente, estava no centro, sábado à tarde, e passaram duas meninas aos beijos por mim. Tudo bem com a opção delas, mas a outra opção me foi mais difícil de engolir. Estava calor, ambas vestiam pouca roupa e os corpos estavam cobertos de tatuagens – feias, ainda por cima. Um recorte de teia de aranha, uma lua, tudo solto, e num desenho mal acabado. Sinto muito passar uma ideia de preconceito, mas a tatuagem me provoca uma reação física negativa muito forte. É instintivo, não racional. Tinha um amigo que tem um galo tatuado no ombro, uma ex-namorada que tatuou, bem pequeninho, lá embaixo, nas partes, um sininho (nunca entendi e nem ela sabia explicar o por quê da escolha). Aquilo ainda passava, tinha charme. Nos filmes, também acho icônicas aquelas figuras da Yakuza, com os corpos todos tatuados, mas aqui do meu ladinho, sorry, um corpo todo tatuado me dá engulhos. Gosto muito de ‘Rocco’, todo mundo sabe, mas ia tatuar o quê? A cara do Delon? Tirando o defeito físico, que já me marca, me basta a cicatriz que carrego no peito, herança da cirurgia do coração no fim de 2008.
Horror – Gosto muito de cinema de gênero, todo mundo sabe, mas prefiro os westerns e filmes de gângsteres, alguns musicais. O horror integra o universo do fantástico e me fascina como metáfora. Por exemplo, embora os ache horríveis, sou fascinado por mortos vivos, não apenas os de George Romero, com sua intenção política, mas também os de Dan O’Bannon e Zack Snyder. Minhas primeiras experiências de horror foram com as produções da Hammer, que vi antes das de Val Lewton. O lendário Terence Fisher introduziu a cor e o sexo em suas histórias de vampiros. Só depois, por volta de 1960, com 20 anos de atraso, vi os primeiros filmes de Jacques Tourneur, Robert Wise e Mark Robson, todos produzidos por Lewton, que praticava a arte da sugestão. Nada era explícito e, menos ainda, gosmento ou sanguinolento. Tomei um choque com ‘Psicose’ e a cena do assassinato de Marion Crane na ducha, com suas 70 e poucas posições de câmera para 45 segundos de impacto, e depois com a violência gráfica de ‘O Exorcista’. Alfred Hitchcock mais William Friedkin revolucionaram o horror, mas o que se seguiu foi ficando cada vez mais radical. Abaixo a sutileza! Detesto a série ‘Saw’, mas em compensação estou louco para ver o novo ‘Premonição’, que estreia acho que dia 15. Acho um barato um filme construído só sobre mortes e cuja engenhosidade está em propor formas bizarras de morrer (e o público ainda paga para ver!). Já disse que o filme que mais me meteu medo na vida foi ‘Seven – Os Sete Crimes Capitais’, de David Fincher, mas o horror ali era interior, o da mente selvagem. Me assusto sempre quando (re)vejo ‘Alien’, o primeiro da série, na TV paga, e tem aquela cena do cara nos dutos, seus amigos acompanham a proximidade do alienígena, gritam que ele está perto, tem o corte, a gente vê a cara do sujeito, seu espanto diante do monstro, mas é tão rápido (a imagem escurece) que nem se vê o alien direito. Discreto e assustador. Uma homenagem de Ridley Scott a Val Lewton e eu me borro nas calças.