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Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2012 | 18h20

Mal acrescentei o primeiro post sobre ‘J. Edgar’ e o César já entrou comentando na minha caixa de e-mails. Ele estranha minha reação à trilogia alemã de Visconti, mas na verdade, César, ela é só sobre ‘Morte em Veneza’, que me parece, apesar de toda a suntuosidade audiovisual, o elo fraco da corrente. Sou fascinado pela mise-en-scène de ‘Os Deuses Malditos’, pelo uso que Visconti faz da lente zoom, prosseguindo com uma pesquisa que havia começado em ‘Vagas Estrelas da Ursa’ (a zoom na imagem invertida de Jean Sorel na poça d’água na cisterna). E ‘Ludwig’ é deslumbrante, outra lição de mise-en-scène, acompanhando a degradação moral e psicológica do rei da Baviera por meio da deterioração de sua arcada dentária. Já contei para vocês, acho que contei, mas Visconti ligou para Romy Schneider dizendo que tinha um papel para ela, e com o qual estava familiarizada. Ela perguntou – de puta? Era o de Elizabeth, Sissi, a personagem que a celebrizou quando jovem e que Romy retoma na idade madura e, mais importante ainda, na maturidade de sua arte como atriz. Visconti sempre disse que seus filmes eram sobre a decadência de sua família aristocrática, eram sobre ele. Isso transparece particularmente na fala de Romy/Sissi, explicando para Ludwig/Helmut Berger que ambos estão condenados, que não têm futuro. Gabriel Villela me disse que viu outro dia Helmut Berger na TV italiana. Não conseguia nem se levantar da cadeira em que estava sentado. Teve de ser ajudado. Não está gordo, mas é a imagem da decadência. Como um homem bonito daqueles pode se degradar tanto? Visconti, que ‘fabricou’ Helmut Berger, apaixonando-se por ele, nunca perdoou que ele o tivesse traído, indo filmar “A Inglesa Romântica’ com seu arquiinimigo, Joseph Losey, que ele detestava porque Losey também queria adaptar ‘Em Busca do Tempo Perdido’ e ambos terminaram inviabilizando os respectivos projetos. A adaptação do romance-rio de Marcel Proust seria um filme caro e os produtores, dividindo-se, acabaram não dando seu apoio a nenhum. Tanto Visconti como Losey mostraram – em ‘O Leopardo’ e ‘O Mensageiro do Amor’ – o que poderiam fazer a la recherche du temps perdu. Visconti escreveu seu roteiro com Suso Cecchi D’Amico; Losey, com Harold Pinter. Ambos os roteiros foram editados e, embora roteiros sejam páginas mortas – como Michelangelo Antonioni gostava de dizer -, permitem sonhar com os filmes que nunca foram feitos. De volta a ‘Ludwig’, outra coisa que me impressiona muito no filme é Silvana Mangano. Com exceção da etérea mãe de Tadzio, Visconti fez de Silvana aves de rapina em ‘Ludwig’, onde ela interpreta Cosima Wagner, e ‘Violência e Paixão’. Silvana, nesses filmes, tem uma qualidade à Greta Garbo. Semiologicamente, resume-se a um rosto, um perfil. Não precisa dizer muito para que o espectador leia no sua cara, e no seu silêncio, tudo o que o diretor quer dizer (e, mais ainda, o que a gente pode colocar de projeção pessoal).