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Olhaí, Celdani, Delmer Daves (e suas mulheres)

Luiz Carlos Merten

29 Agosto 2010 | 13h06

Celdani pegou carona num comentário, no outro dia, para dizer que reviu ‘Jubal’, de Delmer Daves. Acrescentou um elogio à beleza das mulheres nos westerns de Daves – Felicia Farr em ‘Jubal’, que no Brasil se chamou ‘Ao Despertar da Paixão’; Debra Paget em ‘Flechas de Fogo’; Anna Kashfi em ‘Como Nasce Um Bravo’/Cowboy, Maria Schell em ‘A Árvore dos Enforcados’ etc. Poderia acrescentar que as mulheres também eram esplendorosas nos melodramas de Daves. Suzanne Pleshette em ‘Candelabro Italiano’, com Troy Donahue, que não tinha caminhão para carregar toda aquela areia das sexy girls que se atiravam sobre ele em outro Daves, ‘Parrish’, No Vale das Grandes Batalhas (Connie Stevens, Diane McBain e outras). Aliás, Troy foi o garanhão teen do diretor em ‘Amores Clandestinos’ (com Sandra Dee), ‘Candelabro’, ‘No Vale das Grandes Batalhas’ e ‘O Erro de Susan Slade’, no qual reencontrou Connie Stevens. Figura curiosa, Delmer Daves. No ‘Dicionário de Cinema’, Jean Tulard lamenta os melodramas que comprometeram a reputação do cineasta e o impediram de obter reconhecimento como grande autor de westerns que foi. Daves era chamado, na Europa, França e Espanha, de documentarista do western, pelo cuidado – e realismo – de suas reconstituições do Velho Oeste. No caso de ‘Jubal’, lembro-me de haver lido em algum lugar, há muito tempo – quando e onde? –, que ele havia inaugurado o western classe A etnográfico justamente com sua livre adaptação de Shakespeare. ‘Jubal’ baseia-se num livro de Paul ‘Qualquer Coisa’ Wellman, que forneceu as histórias para ‘O Último Bravo’/Apache, de Robert Aldrich, e ‘Os Comancheros’, de Michael Curtiz, e também era um autor reconhecido por seu comprometimento com o realismo na abordagem do Oeste. ‘Jubal’ é ‘Otelo’ disfarçado. Glenn Ford vai trabalhar no rancho de Ernest Borgnine, cuja mulher (Valerie French) lhe dá mole. Ele resiste porque está interessado em Felicia Farr, filha do chefe de uma caravana de pioneiros que passa pela região, mas Rod Steiger, outro vaqueiro, rejeitado por Valerie, banca o Iago e vai alimentar as suspeitas de Otelo/Borgnine. Até onde me lembro, o filme é muito bom, com uma descrição precisa do ambiente e dos personagens, e com essa oposição entre o rancho já constituído e os pioneiros que ainda estão em plena odisseia. Os pioneiros já haviam sido dizimados pelos índios em ‘A Última Carroça’, com Richard Widmark, lembram-se? Embora menos famosa do que a série de westerns de Anthony Mann com James Stewart – ou a de Budd Boetticher com Randolph Scott, para não falar de John Wayne nos bangue-bangues de John Ford e Howard Hawks –, os de Delmer Daves com Glenn Ford ocupam seu espaço destacado no imaginário dos fãs do gênero. Tenho um livro, ‘Les Cent Chef d’Oeuvres du Western’, que comprei na França. Entre as cem obras-primas do gênero estão listados alguns filmes de Daves – ‘Flechas de Fogo’, ‘A Última Carroça’, ‘Galante e Sanguinário’/3:10 to Yuma (refilmado com Russell Cowe e Christian Bale) e ‘A Árvore dos Enforcados’, com Gary Cooper. Este último tem aquela balada, ‘The Hangin’ Tree’, que é uma das mais belas do período em que canções foram acopladas à trilha dos bangue-bangues. Adoro os westerns de Delmer Daves e até ouso dizer que seus ‘atrozes’ melodramas na Warner faziam parte, há 50 anos, dos meus programas no Cacique, em Porto Alegre, onde eram lançados. Com alguns amigos – Tunuca, onde andará? –, eu ‘matava’ aula no Júlio de Castilhos e íamos para o Centro, para ver filmes franceses e italianos no Ópera e no Rex e eu, de gosto muito eclético, também não perdia os melodramas e westerns que escoavam pelas telas do Cacique, do Imperial e do Carlos Gomes. No antigo Vitória, passava o cinema mais comercial europeu (Sara Montiel, Joselito, Marisol e Romy ‘Sissi’ Schneider). Não vou chorar o tempo perdido, mas não seria o espectador – o crítico – que sou sem essa ‘mélange’. Ainda sobre as mulheres de Daves, Felicia Farr foi uma atriz muito ligada a ele. Foram pelo menos três westerns (‘Ao Despertar da Paixão’, ‘A Última Carroça’ e ‘Galante e Sanguiinário’). Jack Lemmon fez com o cineasta ‘Como Nasce Um Bravo’, uma de suas raras incursões pelo gênero. Lemmon e Felicia foram casados por cerca de 40 anos, até a morte dele, em 2001. Quero acreditar que o diretor de ‘Jubal’ tenha sido o Cupido dos dois.