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Luiz Carlos Merten

09 Abril 2007 | 09h07

Este é fundamentalmente um blog de cinema, embora o conceito seja o de uma geléia geral, a partir do cinema. Às vezes comento coisas que não se referem a filmes nem diretores e o resultado é pífio. Não tenho resposta do público. Mesmo assim, insisto. Há tempos quero postar textos sobre dois assuntos, o papa e a lei da cidade limpa. Vai ser hoje. Como todo mundo, quando o cardeal Joseph Ratzinger, ex-prefeito da Congregação da Doutrina da Fé foi eleito papa e adotou o nome de Bento XVI, achei que nada ia mudar no Vaticano. Ratzinger foi figura-chave na administração de João Paulo II e eu achei que ia dar continuidade, quem sabe num mandato-tampão, ao pontificado anterior. Talvez tenha avaliado errado, mas comecei a me interessar por este pontificado. Não creio que João Paulo II, o ex-presidente Ronald Reagan e a ex-premier Margaret Thatcher alguma vez tenham se reunido a três para traçar estratégias de ação (a dois, pode ser), mas este tripé foi fundamental no desmentelamento do comunismo e na criação do admirável mundo novo da globalização. O comunismo era aquela coisa horrorosa. Para os soviéticos devia ser um sufoco viver sob Stálin, mas, como disse certa vez Paulo Francis, o Gulag era ruim para eles. Para nós, era necessário – colocava um limite no poderio dos EUA. Caídos o Muro e o bloco soviéticos, não existem mais limites para o império americano e, menos ainda, sob Bush, que adora uma guerra para manter a economia aquecida. (Era o ponto de Michael Moore em Fahrenheit 11 de Setembro. Moore é muitas vezes acusado, e com razão, de ser tendencioso e manipulador, mas numa cena de Fahrenheit ele simplesmente dirigiu sua câmera e microfone para o assessor de Bush Jr. que buscava apoio de megaempresários para a Guerra do Iraque e, em nenhum momento, se falava ali da ditadura de Saddam Hussein nem de restaurar a democracia. O assunto era claro. A reconstrução do Iraque, após sua destruição na guerra, renderia muito dinheiro para todos. E o emissário era preciso – dizia que não estava falando de milhões, mas de bilhões de dólares. Saddam caiu, os EUA estão atolados numa guerra muito pior do que esperavam e a democracia na região… Mas que bobagem! Quem se interessa por isso?)Karol Wojtila havia conhecido o Gulag quando era cardeal na Polônia. Deu todo apoio ao Solidariedade e fez da religião uma forma de união (ou ideologia) contra um regime odiado. Usou a mídia como nenhum outro papa. Virou uma superstar. O papa era pop. Morto João Paulo II, surgiu imediatamente um movimento para canonizá-lo, como homem santo que era. Era mesmo, ou era político? Agora mesmo, no México, fiquei surpreso com o número de livros que discutem justamente a santidade de João Paulo II, levantando o véu que mantinha obscuros certos fatos de seu pontificado. Para desenvolver sua missão, João Paulo precisava de aliados, a quem protegia. Um desses aliados, desde a Polônia, era dirigente de uma ordem que sofreu um número muito grande de denúncias de abusos sexuais, por parte de religiosos. João Paulo II usou sua autoridade para impedir que o caso fosse investigado a fundo. Bento XVI, na surdina, liberou não apenas essa, mas vários outras investigações às quais João Paulo II criava obstáculos. E, agora, ele elogiou Marx como pensador, e para denunciar o materialismo do mundo atual. Ops! O papa virou comunista? Não, mas me parece, salvo engano – e o tempo o dirá – que ele talvez esteja querendo restabelecer o alinhamento da Igreja com os excluídos, tema que João Paulo tratou sempre muito superficialmente, preocupado que estava com outras coisas. Não houve papa que tenha se esforçado mais para sufocar a Igreja progressista, principalmente nas regiões em que ela era mais atuante, como América Latina e África. O curioso é que, apesar de toda a mídia, o catolicismo encolheu sob o antigo papa. Os evangélicos cresceram muito, numericamente, e João Moreira Salles fez um documentário muito interessante para entender por que os pobres, que têm tão pouco, dividem suas migalhas com os pastores. Porque ganham algo muito importante, em troca – cidadania. (Não estou defendendo pastores que fogem com dinheiro dos fiéis. Estou tentando entender.) Pode ser estratégia de Bento para recuperar fiéis, ovelhas para o rebanho de Cristo. Pode ser outra coisa. Confesso que estou muito curioso para ver o que ele vai dizer no Brasil. Depois de Bush, o papa. Maio promete.