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Cultura » Olha o ladrão!

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Luiz Carlos Merten

18 Abril 2011 | 14h34

Passei a madrugada de sábado para domingo na Virada Cultural, vendo filmes de canibais e de desastre no Olido e no Dom José. Ontem pela manhã, depois de dormir uma hora e pouco, corri para o Campo Limpo para uma pauta envolvendo o lançamento do filme ‘Bróder’. Houve um problema, Cássia Kiss não conseguiu chegar do Rio e a minha pauta foi transferida para hoje de manhã. Que merda! Não a pauta, em si, que foi ótima. Cássia Kiss e Caio Blat refletindo sobre a experiência de filmar no Capão Redondo. A merda é que, enquanto conversávamos, pela manhã e  o fotógrafo Hélvio Romero clicava a dupla no hotel de bacanas da Berrini, um engravatado – vimos depois nas câmeras de segurança – se aproveitou de uma distração, e na cara dura, se apossou da mochila do fotógrafo do ‘Estado’, levando laptop, cartões, dinheiro… É o ó. É horrível, eu sei, mas não deixo de ter fascínio pelo sangue frio desses caras. Já pensaram? O hotel cheio de seguranças, manobristas na porta. Qualquer sinal de alarme e ia todo mundo cair sobre o cara… Esse sangue-frio, essa excitação virou o tema do filme de Louis Malle ‘O Ladrão Aventureiro’, com Jean-Paul Belmondo, que é o meu favorito entre todos os realizados pelo grande diretor. De volta à Virada, quero dizer que me encanta. Acho o Centro de São Paulo tão abandonado/degradado, que me lava a alma ver, pelo espaço de uma madrugada, baixar um milhão de pessoas numa área na qual boa parte delas pagaria para não pisar, em circunstâncias ditas ‘normais. No fim da tarde, meio atordoado e com sono, fui ver Pina Bausch. Despertei na hora. Não a Pina, que um dia chamei de Tina e todo mundo me cobra isso, mas o espetáculo ‘Ten Chi’, por ela concebido e que o Tanztheater Wuppertal executa com aquele brilho. Vou voltar ao assunto, até em conexão com o filme de Wim Wenders, que tanta gente me pergunta quando estreia. Imagino que deva ser na Mostra, ou no Festival do Rio. Se alguém souber de alguma coisa, por favor informe. Agora, vou acrescentar minha reportagem sobre a Virada que terminou sendo cortada – por causa do espaço – na edição de hoje do ‘Caderno 2’. Aqui vai a íntegra.

O TEXTO

Jandira e seu namorado Lúcio, ambos de 29 anos, vieram do Campo Limpo. Chegaram por volta das 3 da tarde no Centro, calibraram-se bebendo em algumas barraquinhas, assistiram a diferentes shows – em vários palcos da Virada Cultural – e, à meia-noite, levados por amigos, foram ver Cannibal Holocaust no Cine Olido. O filme é famoso pelas cenas de violência chocante. Jandira passou boa parte da sessão tapando os olhos ou escondendo o rosto no ombro do namorado. No final, aplaudiu bastante. Por que, se você não viu quase nada, era a pergunta inevitável? “Pela curtição”, ela disse.

A Virada Cultural oferece várias alternativas de shows, mas também, cada vez mais, dedica espaço para o cinema. A programação deste ano privilegiou uma mostra Zé do Caixão, no Cine Windsor; o cinema catástrofe, no Dom José; o cinema para cantar e dançar, no Palácio do Cinema; alguns títulos cults, no CineSesc; e o cinema canibal na Galeria Olido. O aspecto mais positivo dessa seleção foi a tentativa de recuperar espaços perdidos para o cinema pornô. Deve fazer bem uns 20 anos, ou mais, que o Windsor, o Dom José e o Palácio do Cinema só exibem programas de sexo explícito, o que os credencia, sem discriminação, para bum tipo bem específico de público. A tentativa funcionou, em termos.

O próprio gerente do Dom José disse que o único dos 12 programas da Virada que lotou a sala foi justamente o primeiro – O Dia Depois de Amsanhã, de Roland Emmerich, de 2004, às 18h15. “Fomos instruídos para não autorizar a entrada de nenhum espectador 15 minutos depois do início da sessão. Muita gente chiou por causa disso.” O pior desempenho foi o de “Aeroporto’, que George Seaton adaptou do Best seller de Arthur Haley em 1970. O filme passou às 11 horas de ontem e a sessão foi para meia dúzia de gatos pingados, apenas. Em compensação, havia fila para ver Cloverfield – O Monstro, de Matt Reeve, às 16 horas de ontem.

Marco e seu amigo Luís estavam cheios de entusiasmo para assistir ao filme. !”Todo mundo diz que é muito legal, numa linha parecida com a de Distrito 9 (de Neil Blompkamp).” Ambos na faixa dos 20 anos, nunca haviam pisado no Dom José. “Essas salas de sexo explícito são podres”, avaliam. Ambos consideram positivo o fato de assistir a um filme que consideram ‘normal’ num espaço tão contaminado. “Seria bom se todas essas salas fossem recuperadas. Ia ajudar a levantar o Centro da cidade, que é muito caído. Para todo lugar em que a gente olha só vê podridão. É um escândalo que São Paulo seja uma cidade tão suja.”

De volta a Cannibal Holocaust. O filme cultuado do italiano Ruggero Deodato é considerado o precursor de A Bruxa de Blair. Mostra expedição cujos integrantes são devorados por índios antropófagos na Amazônia, os Yamamanis (para diferenciar dos Yanomanis). Há um culto a Cannival Holocaust (e a Deodato). Seu oficiante, na cidade, é o também diretor Carlos Reichenbach, que promoveu, há poucos anos (dois ou três), uma sessão do nfilme em seu cineclube, no CineSesc.

É muito diferente assistir a Cannibal Holocaust numa plateia de cinéfilos, como a de Reichenbach. Por mais insólito e até chocante que possa ser o filme, a galera segura a onda. No Olido, não apenas o público era desinformado como estava afim de diversão (apenas). Tudo era motivo de riso, mesmo que esse, eventualmente, fosse uma reação nervosa. A equipe que viaja ao Amazonas documenta tudo. A câmera está sempre ligada. Capta as imagens do assassinato, um a um, dos integrantes do grupo. Sobrem as imagens, como em A Bruxa de Blair.

Deodato teve a sacada para Cannibal Holocaust há mais de 40 anos. No cinema, onde as mudanças ocorrem com alta velocidade, o impacto do fdilme permanece inalterado, e isso é raro. Jandira fechava os olhos a toda hora. As cenas de estupro lhe pareceram revoltantes. Mas a revolta maior foi de seu namorado, Luís. Ele achou demais quando o pênis do herói foi decepado. “Puta filme sádico, meu. Eu, hein? Quero mais um show para curtir com a minha cachorra.”