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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2007 | 11h02

Creio que, pela primeira vez, desde que tenho o blog, deixei de postar ontem, estando no Brasil. Às vezes ocorre de estar fora, sem computador, e ter dificuldade de encontrar um lugar para postar. Aqui é diferente e eu tento sempre postar dois, três, às vezes dez textos por dia. Ontem, não deu. Além de estar ‘atrolhado’ de matérias no jornal, quebrei um dente, e da frente, o que me levou ao dentista no final da tarde, com aquela chuva. Demorei mais tempo no carro, para ir, do que a Líbia, minha dentista, para consertar o estrago. Enfim, com o sorriso restaurado, volto à vida (é à Mostra) nesta sexta-feira. Antes da Mostra, quero lembrar que estão entrando pelo menos dois novos filmes que vale ver. Um é ‘O Passado’, do Babenco, que inaugurou a Mostra na quinta-feira da semana passada. Jantei outro dia com o diretor de teatro Gabriel Vilela e ele estava fascinado pelo elenco de Babenco, cujas mulheres que amam demais – Analía Couceyro, Ana Celentano e Moro Anhileri – entrevisto hoje no Caderno 2. São ‘bárbaras’ como dizem os argentinos, sempre que querem se referir a algo super. Quando eu era jovem, a gente usava muito o termo lá no Sul, não sei se continua usando, porque a língua, afinal, é uma coisa viva, que também se transforma e ‘bárbaro’ é um argentinismo que assimilamos por lá. Aqui, não vejo muita gente usando o termo, a não ser no outro sentido, o de algo (ou alguém) que se opõe a civilizado. A segunda estréia que me interessa destacar é ‘Tá Dando Onda’, uma animação muito simpática, que tem a forma de um documentário dentro do filme. Entrevistei o co-diretor Ash (de Ashley) Brannon por telefone e ele foi muito legal, dizendo que o que sabe do País é basicamente a partir da Tropicália e do filme de Walter Salles ‘Central Station’, o nosso ‘Central do Brasil’. É curioso, mas entrevisto muita gente fora do Brasil, na Europa e nos EUA. As referências sobre cinema brasileiro não mudam muito. Um ou outro cita Glauber Rocha. A maioria divide-se entre ‘Central Station’ e ‘City of God’, que são hoje, para o bem e para o mal, as referênciais internacionais do cinema do Brasil. Os mais humanistas ligam-se no primeiro, os demais, mais interessados em linguagem e/ou violência, no segundo. Na entrevista de hoje no ‘Caderno 2’ omiti toda a parte relativa à participação de Shia Laboeuf, que faz a voz do pingüim Cadu no original. O filme, afinal, está estreando com 221 cópias – o que representa um número maior de salas – e apenas duas (duas!) são em versão original. As demais são todas dubladas. Conseqüentemente, achei que não valeria ocupar espaço falando de algo que a maioria do público não poderá desfrutar, mas Ash Brannon disse coisas interessantes. Shia, segundo ele, encarna o lado dinâmico do personagem, mas também traz para ele uma doçura que colou em Cadu. O trabalho do dublador brasileiro, que desta vez não é um astro, é bom, também. O cara se chama Gustavo Pereira, para constar dos autos, como se diz. Achei interessante, também, que Brannon e o outro diretor, Chris Buck, tenham fugido a uma regra básica da dublagem. Em geral, os atores dublam sozinhos, uma atividade que muitos definem como solitária. No caso de ‘Tá Dando Onda’, Shia, James Woods e Jeff Bridges, que também emprestam as vozes aos personagens, trabalharam juntos porque Brannon e Buck queriam justamente explorar o conceito do grupo, que é essencial no filme.