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Luiz Carlos Merten

18 Dezembro 2009 | 08h39

Estava chegando no jornal, o motorista tinha uma TV no táxi e eu vi/ouvi algo que me inspira a fazer esse comentário tão cedo. O Parlamento da Catalunha vota hoje – se é que já não votou, por conta da diferença de horário – uma lei proibindo as touradas. A Espanha está dividida. Muita gente contra, por causa da violência contra os animais, outros a favor porque as ‘corridas de toros’ fazem parte da tradição nacional. Neste quadro, 80% dos jovens não ligam a mínima para touradas. Confesso que também fico dividido, mas o que me leva a escrever é a constatação. As touradas no cinema, de Rouben Mamoulián a Pedro Almodóvar, passando por Budd Boetticher, Carlos Velo e Francesco Rosi, resultaram em grandes filmes. Começo pela segunda versão de ‘Sangue e Areia’, a de 1941, com Tyrone Power no papel do matador e Rita Hayworth como a sedutora Doña Sol, que o desestabiliza, dentro e fora da arena. Mamoulián fez um filme que para mim é farol, ‘Rainha Cristina’, com Greta Garbo. A beleza de ‘Sangue e Areia’ transcende a fotografia colorida, que é deslumbrante, e remete à própria concepção, com Nazimova sublime no papel da mãe do toureiro. Mamouliás teve um colaborador precioso, o ex-astro de futebol americano, que virou grande diretor de westerns, Budd Boetticher. Por que só de westerns? Boetticher fez ‘O Rei dos Facínoras’, um dos maiores – o maior? – filme de gângsteres e seu documentário sobre o lendário toureiro Aruzza me deixou chapado quando o vi numa cidadezinha do interior do Peru ou da Bolívia, no começo dos anos 1970. Viajava com minha ex, Doris, pela América Latina e vimos, entre outros filmes, o checo ‘Saltando Otra Vez los Charcos’, de Karel Kachina, e ‘Aruzza’. (Como o cinema checo dos anos 1960 era bom e bonito, mas essa é outra história.) A câmera solta na arena parece participar do balé entre os matadores, o homem e o animal. Essa mesma vertigem experimentei vendo ‘Os Bravos da Arena’, do Rosi, que coloca a ênfase no social, mostrando como, na Espanha, garotos pobres vêem – ou viam – na figura do toureiro a possibilidade de ascensão social, mais ou menos como o futebol até hoje proporciona no Brasil. E aí chego a ‘Toro’, do espanhol Carlos Velo. P. F. Gastal era louco por esse filme e devo a ele a chance de havê-lo assistido, há 40 e tantos anos. Carlos Velo é espanhol – se ainda estiver vivo deve estar quase centenário -, mas desenvolveu boa parte de sua carreira no México, onde escreveu um filme mítico, ‘Raízes’, de Benito Alazraki. ‘Toro’ é sobre dois míticos sucessores de Manolete, que teria sido, ou foi, o maior matador. Dominguín, com quem se casou Lúcia Bosè, e Ordoñez. “Toro’ é sobre a solidão do toureiro na arena, sobre o medo que ele tem do touro, do público e, principalmente, de si mesmo. E chego ao ‘Matador’, de Almodóvar. Um clássico sobre pulsões assassinas. No começo, Nacho Martinez, um ex-toureiro que criou escola de tauromaquia, ensina ao aprendiz como deve se posicionar e mirar exatamente o ponto em que terá de atingir o touro. Em paralelo, vemos Assumpta Serna caçar e matar um desconhecido que catou na rua. Sua destreza é semelhante àquela descrita por Martinez e ambos vão se confrontar no grand finale, pois ele também é serial killer. (E o filme ainda tem Antonio Banderas como jovem gay reprimido pela mãe carola.) São tantas e tão distintas as maneiras de enfocar o tema. As touradas podem até acabar, mas no cinema… São eternas. No meu imaginário e no de muitos outros cinéfilos.

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