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Luiz Carlos Merten

21 Março 2012 | 11h30

Anotei o comentário da Paula no post ‘Filme triste (mais um)’, sobre ‘Shame’, que amei. Havia lido a entrevista de Steve McQueen na revista francesa ‘Positif’, em que ele conta que exibiu ‘Último Tango em Paris’ para seus atores, Michael Fassbender e Carey Mulligan. No dia seguinte, a imprensa divulgava a informação de que Maria Schneider havia morrido. McQueen deixa subentendido que foi uma referência – acho que o que estava querendo mostrar é o clima que pretendia colocar na tela. Estou na redação do ‘Estado’, acabo de fazer os filmes na TV de amanhã. E qual não foi minha surpresa? Dose dupla de Bertolucci – ‘Último Tango’, às 22 h, no TCM, e ‘Os Sonhadores’, de madrugada, 2h35, no Telecine Cult. Não sou muito fã da trilogia oriental do autor (‘O Último Imperador’, ‘O Céu Que nos Protege’ e ‘O Pequeno Buda’) e me emocionei quando vi ‘Beleza Roubada’ em Cannes. Foi como se Bertolucci estivesse ressuscitando para mim, mas nunca vou saber se foi o próprio filme – a degradação da geração de Maio de 68, a morte de Jeremy Irons – ou se foi o fato de a jovem Liv Tyler, em sua estreia no cinema, se parecer tanto com minha filha Lúcia (e a personagem dela se chama Lucy) que me fizeram surtar. Maio voltou em ‘Os Sonhadores’, ganhou o primeiro plano. Michael Pitt, um americano em Paris (como Marlon Brando, no ‘Tango’), se envolve com os irmãos incestuosos Eva Green e Louis Garrel. O mundo explode lá fora, o trio tranca-se num apartamento para seus jogos de sexo (e mentes). Ecos de Jean-Luc Godard, ‘A Chinesa’. Acho que somente hoje, no pequeno texto sobre o ‘Tango’, ousei dizer/escrever uma coisa na qual pensava há muito tempo. Só quem viveu no começo dos anos 1970 pode avaliar como ‘Tango’ foi importante. Os anos 1960 haviam sido transformadores (a década que mudou tudo?), mas permaneciam tabus que Bertolucci e, depois, Nagisa Oshima (‘O Império dos Sentidos’) ajudaram a demolir. O coito anal, a cena da manteiga, provocou um escândalo sem precedentes. Não creio que tenha havido outro filme mais controverso, na época. E o ‘Tango’ continua forte e impactante, falo das cenas de Brando e Maria Schneider. Ao mesmo tempo, sinto, sinceramente, que o filme envelheceu e ficou datado. Revi o ‘Tango’ na TV paga, há pouco tempo, e me senti incomodado e até constrangido com o lado ‘godardiano’, as cenas de Jean-Pierre Léaud invasivo, com aquela câmera. Acho que até entendo o que Bertolucci estava querendo dizer, mas é tão infantil, principalmente face à intensidade do monólogo de Brando, quando desaba, emocionalmente, diante da mulher morta. O desequilíbrio é demais. Brando, o maior astro de Hollywood nos anos 1950, estava liquidado, 20 anos depois. Salvaram-no Bertolucci e Francis Ford Coppola, com ‘O Poderoso Chefão’. Gosto do ‘Tango’, que vi aos 28 anos, em Buenos Aires, numa fase em que o filme estava proibido no Brasil e se organizavam excursões para vê-lo no exterior. Gosto, reafirmo, mas sempre me perturba muito um pensamento. Maria Schneider sempre jurou que foi abusada por Brando e por Bertolucci no set e que eles improvisaram com ela a cena da sodomização. Muito jovem, inexperiente, ela – dizia – foi usada por ambos, sentindo-se humilhada e ofendida. Maria foi muito marcada pela experiência, na arte como na vida. OK, o resultado foi um filme que fez história, mas eu tenho meu lado Spielberg, que invocou o Talmud em ‘O Resgate do Soldado Ryan’. A vida de um homem vale a vida de todos os homens. Um filme vale o que a dupla BB fez com Maria Schneider? E eles fizeram mesmo? Conheço uma meia-dúzia de feministas pouco confiáveis. No fundo, são machistas empedernidas. Nunca as vi discutirem seriamente esse assunto, como se não tivesse importância. É curioso, mas parte dela – da discussão – está em ‘Uma Terapia Perigosa’, de David Cronenberg, no triângulo formado por Viggo Mortensen, Michael Fasbender e Keira Knightley. Foi outro filme, ‘A Dangerous Therapy’, que me impactou muitíssimo.