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Luiz Carlos Merten

21 Abril 2010 | 16h06

Era o nome de um grupo que fazia teatro de vanguarda no Rio Grande do Sul nos anos 1970. Deve fazer ainda, ou melhor, faz, porque o grupo foi finalista ao Shell no ano passado, ou retrasado. Muita coisa que vejo hoje, ou que me é apresentada como novidade, parece reciclagem do ‘velho’ Oi Nóis. Por que escrevo isso? Porque vou falar de teatro. Fui ver ontem a primeira parte de ‘O Idiota’. Viajo na semana que vem para o Festival do Recife e, na volta, emendo Pernambuco com Londres, a junkett de ‘O Príncipe da Pérsia’, e Cannes, onde o festival começa dia 12 – se as cinzas do vulcão nórdico não continuarem tumultuando os voos na Europa. Ou seja, era começar a ver ‘O Idiota’ ontem ou desistir do novo trabalho de Cibele Forjaz, que fica em cartaz até 9 de maio. O problema é que, agora, não sei se conseguirei ver a segunda e terceira partes. A segunda, hoje, está difícil, senão impossível. É mais fácil conseguir uma brecha para ver a final, amanhã. Tenho certeza de que minha colega Beth Néspoli vai torcer o nariz e me achar desqualificado para opinar sobre ‘O Idiota’. Ia até abrir mão de escrever qualquer coisa, mas aí me disseram que era a capa de hoje da ‘Ilustrada’ e eu resolvi conferir o entusiasmo do crítico da concorrência. ‘Extraordinário’ é como ele define o espetáculo. Pobre Dostoievski. Extraordinário era ‘Hakuchi, o Idiota’ de Kurosawa, mas curiosamente o filme, embora disponível em DVD, não consta da lista das atividades paralelas sobre o escritor russo que o coletivo de Cibele promove no Sesc Pompeia, à margem de sua montagem. Por que será? Por que Kurosawa fez, ele sim, um extraordinário trabalho de síntese do original e não seria interessante compará-lo com as digressões da montagem tripartite? Tenho medo de ser injusto, porque as coisas podem se completar e até fazer sentido no cômputo final, mas a primeira parte me deu uma sensação de caos, agravada pelas interpretações. Todo mundo ali carregava seu volume de ‘O Idiota’ na mão, meio para nos convencer, ou se convencer do que era, mas eu não senti muita firmeza, não. Cibele, até onde sei, começou com Antunes Filho, antes de se integrar à tribo de Zé Celso Martinez Correia. Seu teatro está mais para o Oficina – carnavalização (a canibalização do russo?), cerimonial dionisíaco. Beth tinha me dito que, desta vez, não seria preciso ‘votar’. Nos espetáculos anteriores, Cibele já nos fez – nós o público – anotarmos os nomes de nossos mortos – e queimar, ela adora uma fogueira –, ou então escolhermos qual ‘rainha’ deveria sobreviver. Desta vez, eu gostaria de ter votado, porque ela pede, num determinado momento, que a plateia apedreje a personagem Marie. Queria ter opinado se a Marie deveria ser mesmo apedrejada. O público, alegremente, lançou suas pedras – claro que não eram pedradas, mas o seu equivalente cênico. Eu, hein? Empaquei naquilo e não consegui ir adiante. Fiquei feito um asno, o que me lembrou Bresson, ‘A Grande Testemunha’. Nada a ver, mas a cena em que o príncipe faz o relato sobre o jumento é das melhores. Sim, o espetáculo tem coisas boas. Mas, afinal,. estamos querendo criar efeitos de distanciamento sobre o público ou justamente o oposto, mostrar como pode ser manipulado? Que se trata de manipulação, é óbvio. Toda apropriação, ou melhor, toda construção autoral carrega isso, o sr. Brecht que me perdoe. Por que ilustrar ‘O Idiota’ em três espetáculos de 3, 2 e 2 horas? Por que esta duração, este tempo? Por que não, sei lá, o dobro, 14 horas, mas bem feitas? Ou 2 e meia, 166 minutos, como a versão de Kurosawa, feita por quem leu e digeriu o livro e não precisa fazer com que os atores, Toshiro Mifune, fique esfregando o volume na cara da gente? No fundo, é uma herança de Zé Celso, em cuja galáxia Cibele gravita. Uma amiga, muy amiga, tinha achado o Antunes – ‘Policarpo Quaresma’ – muito antigo, fogo morto. Ela vê ‘O Idiota’ como coisa viva. O futuro do teatro? Tempos sombrios, esses que nos aguardam…