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Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2010 | 16h59

Tive uma manhã bem agitadinha. Redigi os filmes na TV de amanhã em casa, corri para o médico – tinha horário agendado há um mês – e dali fui para o Arteplex, chegando a tempo de ver o sétimo Harry Potter, ‘As Relíquias da Morte’. Confesso que os dois primeiros filmes da série, realizados por Chris Columbus, me sinalizaram para uma coisa. Não gostei. Columbus foi ótimo roteirista de clássicos infanto-juvenis (‘Os Goonies’ e ‘O Enigma da Pirâmide’), mas como diretor ele tende a ser devagar. Por mais bonita que seja a história de Isaac Asimov, ‘O Homem Bicentenário’, sobre o desejo de um robô de ser reconhecido como humano, é um dos filmes mais aborrecidos que conheço. ‘Harry Potter’ 1 e 2 tiunham de apresentar os personagens, definir a linha narrativa e tudo isso exige tempo, que CC empregou da maneira parimoniosa de sempre. Ou seja – talvez não precisasse ‘tanto’ tempo. As coisas começaram a melhorar com Alfonso Cuarón, melhoraram mais ainda com Mike Newell e aí veio David Yates. Vou ter de procurar para saber se tem parentesco – qual? – com Peter Yates, a quem amava por dois ou três belíssimos filmes (‘Bullitt’ e ‘O Fiel Camareiro’ acima de todos). Quando entrevistei Imelda Staunton pelo seu papel como a mãe de ‘Aconteceu em Woodstock’ – chamava-se asssim, não? -, era inevitável que a gente falasse em Ang Lee e Mike Leigh, que a dirigiu em ‘Vera Drake’, mas só uma vez ela usou o adjetivo gênio para definir um diretor e foi para David Yates. Feita introdução, quero dizer que achei ‘Harry Potter’ 7 bem legal. É o filme mais sombrio da série, termina com uma morte, mais exatamente com um enterro e eu confesso que, como creio em lágrimas, fiquei bem à vontade para me emocionar. O mais interessante é uma pequena digressão que pretendo fazer. Nunca o tema da amizade foi tão forte na saga. Desde o primeir0 filme, temos acompanhado a construção da amizade de Harry/Hermione/Rony e da inevitável tensão que acompanha o que já se desenhou como um triângulo amoroso. Mas a amizade agora extrapola o trio. De cara, já na cena inicial, muita gente se sacrifica pelo bruxinho (e pelo que significa). Mas a amizade a que me refiro é a do elfo. Só o cinema consegue me fazer identificar com elfos, peixinhos (Nemo), até um rato (Ratatouille). Não precisa ser gente como a gente. Espero, sinceramente, continuar assim. Mas a tal digressão diz respeito ao tema da amizade como essencial no cinema atual, ou pelo menos no ano. ‘Rede Social’, ‘A Suprema Felicidade’, ‘A Origem’, ‘Harry Potter’ 7, todos tratam da amizade e dos sacrifícios que ela impõe (ou encerra). Poderia citar muitos outros filmes. Vou voltar ao Jabor (de novo!). Alguém reclamou num comentário que o filme dele é mal narrado e citou como exemplo o amigo que desaparece. Ai, meu Deus. O amigo ama secretamente o herói, Paulinho. Na cena do mictório, ele fica a um passo de concretizar seu desejo pelo corpo masculino com aquele sujeitinho que atiça sua sexualidade. Não sei se existe cena mais homoerótica no Mix Brasil. Quando o garoto o faz – ceder ao seu desejo -, metaforicamente ele ingressa numa bruma. Lembrei-me vagamente de Fellini, a bruma que envolve o touro mítico em ‘Amarcord’. O garoto desaparece. Me pareceu uma bela maneira de abordar e até resolver, dramaturgicamente, a questão da homossexualidade. Aquela garotada que anda de mãos dadas e aos beijos no Shopping Frei Caneca deve achar que o grau de tolerância foi sempre este. Nos anos 50/60, na época enfocada em ‘A Suprema Felicidade’, a história era outra.  Jabor sabe disso e nos poupa de acompanhar a história do garoto – não é seu tema -, mas ele sinaliza para alguma coisa. Saí do cinema viajando depois de assistir a ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’, primeira parte. A segunda estreia só em julho do ano que vem. Já estou nos cascos para ver. Ah, a amizade. É curioso que sou capaz de citar ‘trocentos’ filmes sobre a amizade masculina, muitos mais do que a feminina. As luluzinhas que façam suas listas. Para encerrar o post, quero lembrar de algo que já escrevi. Por menos que goste de ‘Harry Potter’ 1 e 2, Chris Columbus fez um grande trabalho escolhendo o elenco. O trio é bom, mas me reservo o direito de gostar mais de Rupert Grint e Emma Watson – ele é ótimo, ela ficou muito atraente – do que de Daniel Radcliffe.