As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ocupar, resistir

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2015 | 15h08

RECIFE – Jefferson De carrega o estigma de ser o Spike Lee brasileiro, mas como seu bróder tenho certeza de que ele preferiria ser o Antoine Fucqua brasileiro. Admiro imensamente o diretor de O Protetor, que não se sente obrigado a fazer sempre cinema black e realizou o épico Arthur, que foi um flop, mas consegui arrancar do produtor Jerry Bruckheimer que era um de seus filmes favoritos (e um dos meus também). A batalha do gelo de Arthur, a carnificina no QG da Máfia russa em O Protetor – e, inversamente, a calma do diálogo entre Denzel Washington e a jovem prostituta na lanchonete, no mesmo filme – Fucqua não é fraco, não. Tudo isso serve como preâmbulo para a exibição, ontem, de O Amuleto. Jefferson não só abre mão de seu cinema black, social, como vai a Santa Catarina, num reduto white, para fazer, com todas aquelas fadinhas loiras, sua incursão pelo cinema de gênero. O Amuleto nasceu com o declarado desejo de conquistar uma fatia desse mercado de shopping que transforma os filmes de terror de Hollywood em mega-hits. Jefferson tem suas referências – Luci Fulci, Mario Bava e… Ivan Cardoso, Sete Vampiras. Como se faz um terror brasileiro? E o que é um terror brasileiro? Um filme que se apropria dos códigos de gênero, mas é falado em português? O Amuleto tem cara de Bruxa de Blair. Grupo desaparece na floresta e deixa vestígios gravados nos celulares – imagens, sons. O filme pega carona na tradição anglo-saxã das bruxas. Passa-se predominantemente de dia, não de noite. Tem elenco fraco, mas isso não importa muito porque a maioria está ali para morrer. Existem dois ‘personagens’ – a floresta e a trilha (a música). De personagem mesmo, carne osso, só um – uma, a assistente do policial que investiga o caso. O filme estreia dia 28, num pequeno circuito, em três praças. Rio, São Paulo e Florianópolis. Serão 15 cópias no total. A expectativa é e que cresça, a partir daí. Já que falei na assistente do policial, ela encerra o sentido do filme, e do amuleto, como vocês poderão perceber, quando virem o novo Jefferson De. O filme tem chance de pegar (no mercado)? Gostaria de acreditar que sim, mas ele me parece muito ‘tímido’, muito mauricinho nesse universo cada vez mais hardcore do horror made in Hollywood. O que seria seu diferencial – esse mauricismo – talvez seja, no mercado, sua fraqueza, mas pode ser que não, porque o filme já foi selecionado pelo Fantaspoa, o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, e interessou a um distribuidor norte-americano que só trabalha com terror. De qualquer maneira, foi um ótimo debate, dos melhores desse festival. Temia que Jefferson fosse massacrado, mas estava subestimando sua capacidade de autodefesa. E, sem conotação racista nenhuma – por favor! , um garoto negro, só por isso, enfrenta dificuldades que outro branco talvez nem conheça, embora ambos façam parte do mesmo movimento de resistência no mercado. Ocupar, resistir. Ocorrem atualmente no Recife protestos e ocupações contra a especulação imobiliária que está desfigurando a cidade. Francesco Rosi, Le Mani sulla Città. Ao mesmo tempo, no cinema, os cineastas propõem a ocupação, com seus filmes, das salas de shopping. Com quais filmes? Filmes autorais de mercado, como o do Jefferson. Vai dar certo?  Mesmo não tendo gostado muito, torço para que sim. Mas, como me disse a produtora dele, a primeira vez que vi Bróder não gostei muito. Depois, mudei de opinião. Quem sabe…?