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Luiz Carlos Merten

27 Abril 2011 | 14h01

Mário Kawai, sempre atento, nos informa do ciclo da Sala Cinemateca em homenagem aos 88 anos de Lygia Fagundes Telles. Parabéns! Além dos filmes adaptados de originais da escritora, a programação contempla títulos por ela escolhidos. Aleluia! Teremos de volta – no sábado – o ‘Horas Nuas’ de Marco Vicario, com Rossana Podestà e Keir Dullea. Há que agradecer à cinéfila Lygia. Obrigado, Lygia (primeiramente por existir, e por sua literatura). Antônio Gonçalves e eu sempre trocamos figurinhas aqui na redação do ‘Estado’. Falamos de velhos e novos filmes. ‘Horas Nuas’ é um daqueles aos quais, volta e meia, retornamos. Faz muito tempo que o assisti, e não é dos filmes que vivem passando em programações especiais (seja na TV ou em cinematecas). Por isso mesmo, não saberia dizer como se articulam esses fragmentos que permanecem na minha lembrança e nos quais penso, sempre que me vem o título do filme. A gênese de ‘Horas Nuas’ é muito interessante. Vicario, que começou como produtor – ‘A Escrava de Roma’, de Sergio Griecco, também com Rossana Podestà -, tinha uma vaga ideia da história que queria contar em sua estreia como diretor. Ela deveria se passar em dois tempos, um dia no passado, outro no presente, envolvendo um casal de amantes (e a mulher, interpretada pela mulher dele, a sexy Rossana, seria casada). Ele foi a Alberto Moravia, que concluíra ‘Appuntamento al Mare’. Elementos do livro foram integrados ao filme, mas não se trata de uma adaptação. As cenas a que me refiro são – um movimento semicircular da câmera ao redor de Rossana, sentada num banco de praça; Keir Dullea e ela fazem amor no alto de uma torre, de um campanário. Vicario filma o badalar dos sinos em câmera lenta e funde com o movimento dos amantes e o êxtase da mulher quando o som explode, prolongado. Tem mais um passeio de barco, com umas gaivotas. E o cadáver na praia, que ou eu me engano muito ou o diretor não esclarece de quem é, terminando o filme em aberto, para que o espectador o complete do jeito que quiser (ou achar melhor). Mário Kawai lembra Michelangelo Antonioni a propósito de ‘Horas Nuas’. Se não me engano, o ex (eterno) presidente da Cinemateca, Francisco Luiz de Almeida Salles, era um grande admirador do filme de Vicario e ele também o considerava ‘antonionesco’. Seria obra de um Antonioni mais preciosista e ‘musical’ (a trilha de Riz Ortolani), em substituição aos rigorosos silêncios do mestre, mas igualmente ligado nos temas da solidão, da incomunicabilidade e da alienação dos sentimentos. Marco Vicario fez, na sequência, uma série de sucesso, ‘Os Sete Homens de Ouro’ e ‘O Grande Golpe dos Homens de Ouro’, sobre grupo que se reúne para assaltar bancos. Mas sucesso mesmo ele obteve, em 1978, com ‘Esposamante’, com Marcello Mastroianni e Laura Antonelli. Em pleno ardor feminista, surgiu a história desse marido machista que precisa se esconder no sótão de uma casa para fugir a uma acusaação de assassinato. De lá, ele consegue visualizar a própria casa e vê a transformação da mulher, que deixa de ser a criatura apática e dependente que o exasperava para seguir os passos dele. Ela sai para o mundo, tem um romance fortuito e o marido começa a desejar essa mulher que era uma estranha para ele (mas ele também o era, para ela). ‘Esposamante’ virou cult, quem sabe ‘Horas Nuas’ também não ganha uma nova leva de admiradores. O filme, de 1964, estreou no Brasil dois anos mais tarde. Em 1967, ganhou o prêmio Saci, que o ‘Estado’ outrorgava aos melhores do cinema. ‘Horas Nuas’ (Ore Nude) ganhou na categoria de filme estrangeiro.