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Luiz Carlos Merten

01 Maio 2011 | 11h39

Ia intitular o post ‘Obrigado, Lygia 2’, mas resolvi agradecer a meu amigo Dib Carneiro Neto. Liguei ontem para ele para ver se ia rolar uma janta, Dib havia combinado de sair com a Jussara, mas me perguntou – e o ‘teu’ filme? O ‘meu’ filme era o ‘Le Ore Nude’, que queria ver no ciclo que a Sala Cinemateca dedica aos 88 anos de Lygia Fagundes Telles. Lembrei-me do cult de Marco Vicario. Lá fui eu vê-lo. Obrigado, Lygia, por trazer de volta essa obra perdida da minha juventude. Obrigado, Dib, por me lembrar. A noite foi maravilhosa. Tenho ido bastante à Sala Cinemateca e me encanta aquele jardim. Todo o formato do prédio, com aqueles tijolos aparentes, a forma arquitetônica, me remete à Itália e ontem a noite estava clara. Caminhei por aquele jardim, aquele parque, totalmente silencioso, e foi uma experiência intensa, eu diria até mística. Havia um casal de jovens sentado na relva. No meu imaginário, viraram Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau no desfecho de ‘A Noite’, de Michelangelo Antonioni. ‘As Horas Nuas’… Pensava no filme de Vicario por suas conexões com Antonioni, mas ontem, revendo, tive mais a sensação de que poderia ser um filme de meu amigo Walter Hugo Khouri. Incrível como nunca falei sobre ‘As Horas Nuas’ com ele. Jefferson Barros escreveu, nos anos 1960, em Porto, uma crítica sobre Walter Hugo – não me lembro se sobre ‘Noite Vazia’ ou ‘Corpo Ardente’ – que começava assim. O que seria de Michelangelo Antonioni sem a Itália, de Ingmar Bergman sem a Suécia, de Alain Resnais sem a França? Seriam Walter Hugo Khouri fazendo cinema no Brasil. Talvez Jefferson tenha sido duro com Khouri, mas com certeza não menosprezava sua capacidade intelectual. ‘Le Ore Nude’ é mais kouriano do que antonionesco. Trata do vazio existencial dessa Bovary insatisfeita porque o marido não consegue colocar em palavras o afeto nem o desejo que sente por ela. A arquitetura dramática, as paredes brancas, o valor conferido aos objetos, tudo tem conexão com Antonioni, mas a música de Riz Ortolani não tem a gravidade das partituras de Giovanni Fusco e a importância conferida ao erotismo, a carnalidade de Rossana Podestà, sua cena de sexo com o garoto (Keir Dullea, o futuro astronauta de ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick), são mais Khouri. Um breve entreato – para falar sobre Rossana. Que bela mulher! No filme, ela usa o cabelo à garçonne, como Claudia Cardinale em ‘Desejo Que Atormenta’ (Senilità), de Mauro Bolognini. Rossana foi a Helena de Troia de Robert Wise e fez ‘A Rede’ (La Red), com o Índio Fernandez no México. Mas o filme dela de que mais me lembro é uma fantasia de Antonio Margheritti, ‘A Seta de Ouro’, com Tab Hunter, uma espécie de pré-‘O Príncipe da Pérsia’. De volta a ‘Le Ore Nude’, lembrava-me de cenas esparsas – o movimento circular da câmera em torno ao rosto de Rossana, mulher do diretor, as gaivotas na cena da lancha, com o marido, o movimento dos sinos no campanário, com o jovem. O filme foi me vindo, reativando a lembrança. De repente, era eu, aos 65, quase 66 anos, reencontrando o jovem de 21 ou 22, que tinha ao assistir a ‘Le Ore Nude’. E o filme é muito interessante. Passa-se basicamente durante dois dias, um da protagonista com o marido, outro com o garoto, o amante, mas no final tudo pode ser só um sonho que ela relata ao marido, embora o cadáver final, na praia – a identidade não é revelada –, deixe a interpretação em suspenso. ‘As Horas Nuas’ foi coescrito por Vicario com Antonio (depois Tonino) Guerra e Alberto Moravia (incorporando elementos de ‘Appuntamento al Mare’, do autor) e fotografado por Carlo di Palma. Na saída da sessão, não encontrei táxi no Largo Senador Raul Cardoso e fui caminhando, caminhando… Aquela é uma área meio deserta, mas volta e meia, feito oásis no deserto, havia bares repletos de gente, em um ou dois os casais dançavam na rua, em bailes improvisados. Era o clima de que precisava, após ter assistido ao filme. Terminei encontrando um táxi quase na 23 de Maio. Fomos jantar. Jussara, Dib e eu. Foi uma noite bacana. Rever ‘As Horas Nuas’ me fez muito bem. O filme terá nova exibição no sábado que vem. Vai valer a pena… E, ah, sim, a mostra dedicada a Lygia Fagundes Telles é acompanhada de uma exposição de fotos, muitas do acervo pessoal da autora. Lygia envelheceu bem, mas a jovem Lygia era um assombro de bela. Suas fotos com figuras míticas – Paulo Emílio Salles Gomes – me emocionaram muito. Incrementaram a viagem interior que fiz ontem.